Foi a primeira vez

Neste momento, estou todo arrepiado e com muita vontade de chorar. É como se ouvisse outra vez, escondido em meu quarto, com o cheiro forte de um jasmineiro ali embaixo, os discos de música erudita que você ouvia muito alto. Até hoje penso que seria Beethoven ou quem sabe Wagner. Era algo muito vibrante. Foi a primeira vez que ouvi música erudita. Foi a primeira vez que eu soube que existiam poetas. Tudo isso me toma agora de novo e é tão mágico que quero agradecer a você a lembrança – deus, tão remota e ao mesmo tempo tão dilaceradamente viva.

– Caio F. Abreu

Trecho da carta extraída do livro “O que importa em Oracy”,
organizado por Fátima Friedriczewski,

Aninha e suas pedras

Não te deixes destruir…
Ajuntando novas pedras
e construindo novos poemas.

Recria tua vida, sempre, sempre.
Remove pedras e planta roseiras e faz doces. Recomeça.

Faz de tua vida mesquinha
um poema.
E viverás no coração dos jovens
e na memória das gerações que hão de vir.

Esta fonte é para uso de todos os sedentos.
Toma a tua parte.
Vem a estas páginas
e não entraves seu uso
aos que têm sede.

Cora Coralina in “Melhores Poemas”

Esquisita

E, se você me achar esquisita, respeite também. Até eu fui obrigada a me respeitar.

Clarice Lispector in “A Descoberta do Mundo”

Poupa-me o trabalho

Não quero que as pessoas sejam muito gentis; pois tal poupa-me o trabalho de gostar muito delas.

Jane Austen in “Cartas”

Com licença poética

Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não tão feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
— dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável.
Eu sou.

Adélia Prado in “Poesia Reunida”

Repararam na referência ao ‘Poema de Sete Faces” do Carlos Drummond De Andrade?

“Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.”

Há os que dizem: “vai ser coxo na vida”.

Mapa Astral

Nesse dias que eu estou à toa e reencontro uma amiga. Dá nisso…

Capítulo 1 – DESCRIÇÃO GERAL
Você é impressionável, emotivo, caseiro e vidrado em parentes e familiares. Sente necessidade de segurança afetiva e material. Quando esta perturbado torna-se tímido, intolerante, caprichoso, negligente e melancólico. Teme o ridículo, sofre de ansiedades.

Capítulo 2 – TEMPERAMENTO E EMOTIVIDADE
Por temperamento você é pessoa ativa, curiosa, esperta, engraçada, mas irresoluta. Prefere racionalizar suas emoções do que deixar envolver-se emocionalmente, mas adora comunicar-se com os outros. Gosta de mudar e de viajar.

Capítulo 3 – MENTE E COMUNICAÇÃO
Sua mente é muito influenciada pelas emoções profundas e seu raciocínio não é lógico, salvo nos assuntos humanitários. Você aprende melhor intuitivamente já que tem percepção psíquica e intuitiva e esta voltado para a vida domestica e familiar.

Capítulo 4 – SENSIBILIDADE E AFETOS
Sua sensibilidade é intelectualizada, curiosa, constante e atraída pelas pessoas inteligentes, espertas e engraçadas. Em vista disso, é capaz de expressar-se com arte e de ter mais de um amor ao mesmo tempo. Prefere cônjuge que não atrapalhe suas amizades.

Capítulo 5 – ATIVIDADE E CONQUISTA
Sua atividade é intensa, precisa, prática e persistente, muito voltada para a aquisição de dinheiro e bens. Você não se importa com a rotina, nem com o cumprimento de horário. Também é capaz de criar objetos belos e duráveis.

Capítulo 6 – SENTIMENTO E ÊXITO
Você se preocupa bastante com o seu próprio progresso e desenvolvimento. Não gosta de estar por fora ds coisas e em vista disso sempre procura fazer parte e até liderar a panelinha. Tende a exagerar e a dramatizar. Contudo, é pessoa otimista e comunicativa.

Capítulo 7 – ESFORÇOS E LIMITAÇÕES
Você é muito ético e correto, mas leva suas responsabilidades tão a serio que se torna obcecado. Talvez receie a maldade ou atentado e fica preocupado e angustiado quando as coisas não estão muito inteligíveis para você.

Capítulo 8 – ORIGINALIDADE E INDEPENDÊNCIA
Sua maneira intensa, dinâmica, original e fascinante de abordar pessoas e assuntos e sua grande disposição de experimentar em matéria de sexo, exerce grande poder de atracão sobre as pessoas do sexo oposto. Gosta de investigar tudo o que esta oculto.

Capítulo 9 – IMAGINAÇÃO E PSIQUISMO
Sua natureza psíquica anseia por padrões religiosos e filosóficos mais elevados. Em vista disto, você apoia a revisão das leis em vigor, busca um sentido mais profundo para a vida, interessa-se pelos poderes da mente e gosta de fazer extensas viagens.

Capítulo 10 – TRANSFORMAÇÃO E DESTINO
Você é altamente adaptável, ama a beleza, gosta da vida social e dá grande valor ao relacionamento harmonioso. Tem acentuado senso de justiça e forte instinto social. Contudo, costuma ser inconstante em suas próprias relações sociais.

Os pontos mais relevantes de seu Mapa Astral
– Você é ambicioso, firme, ativo, vigoroso e rápido. Gosta de competir, de enfrentar desafios e de trabalhar com grupos bem ativos. Apesar de sempre estar ocupado, costuma encontrar tempo para as tarefas adicionais.

– Você costuma encarar a vida de modo excessivamente rígido, pessimista e convencional. Sua forte tendência a receiar as mudanças e inovações, bem como a ansiedade que sente em função de imaginados fracassos e perigos, causa-lhe grandes preocupações. E a maioria destes medos estão apenas dentro de você mesmo.

Fonte: http://www.cigano.net/astrologia

O vento

O cipreste inclina-se em fina reverência
e as margaridas estremecem, sobressaltadas.

A grande amendoeira consente que balancem
suas largas folhas transparentes ao sol.

Misturam-se uns aos outros, rápidos e frágeis,
os longos fios da relva, lustrosos, lisos cílios verdes.

Frondes rendadas de acácias palpitam inquietantemente
com o mesmo tremor das samambaias
debruçadas nos vasos.

Fremem os bambus sem sossego,
num insistente ritmo breve.

O vento é o mesmo:
mas sua resposta é diferente, em cada folha.

Somente a árvore seca fica imóvel,
entre borboletas e pássaros.

Como a escada e as colunas de pedra,
ela pertence agora a outro reino.
Se movimento secou também, num desenho inerte.
Jaz perfeita, em sua escultura de cinza densa.

O vento que percorre o jardim
pode subir e descer por seus galhos inúmeros:

ela não responderá mais nada,
hirta e surda, naquele verde mundo sussurrante.

Cecília Meireles in “Mar Absoluto”

Crônicas da fonte do rio das flores de pessegueiros

Há muito e muito tempo atrás…
“Durante o reinado do Imperador Wu, no período da dinastia Jin, um pescador perdendo a noção do quanto havia avançado em um rio, de repente se viu em uma floresta de pessegueiros floridos.
Por várias centenas de passos, não havia nenhum outro tipo de árvore em nenhuma das margens do rio.
O lugar cheirava a grama fresca e as flores caíam em desordenada suavidade.
O pescador ficou preso de admiração.
Ele foi ainda mais longe pela floresta, onde as árvores terminaram na origem do rio, onde ele encontrou uma colina com uma pequena gruta um pouco iluminada.
Então o pescador deixou o barco e caminhou através da abertura que era inicialmente estreita, mas suficientemente grande para permitir a passagem de uma pessoa.
Depois de mais alguns passos, eis que a vista se abriu em um espaço amplo.
Uma vasta planície foi trazida à sua vista, repleta de casas distintamente ordenadas e cheia de bons campos, belas lagoas, amoreiras e bambus.
O lugar era marcado por estradas e caminhos entre os campos.
Cantos de galos e latidos de cães eram ouvidos de uma aldeia à outra.
As pessoas que lá operavam e trabalhavam nas fazendas, eram todos homens e mulheres, vestidos como roceiros.
As pessoas de cabelos grisalhos e as crianças com tranças nos cabelos, pareciam felizes e bem contentes.
Eles ficaram surpresos ao ver o pescador, à quem logo perguntaram de onde ele tinha vindo.
O pescador respondeu a todas as suas perguntas.
Então eles o convidaram para visitar suas casas, prepararam galinhas, e serviram vinho para entretê-lo.
Conforme corria a notícia de sua chegada, a vila inteira acabou por recebê-lo.
Os aldeões disseram que os seus antepassados haviam chegado à esse paraíso isolado, trazendo suas famílias e as pessoas da aldeia para escaparem do tumulto durante a Dinastia Qin e que a partir de então, eles haviam cortado ligações com o mundo exterior.
Eles estavam curiosos para saber que dinastia era agora.
Eles não sabiam da Dinastia Han, para não mencionar a dinastia Wei e as dinastias Jin (265-420), período daquele momento do encontro.
O pescador disse-lhes todas as coisas que eles queriam saber.
Eles suspiraram.
Os aldeões ofereceram-lhe uma festa após a outra.
Eles o divertiram com vinho e deliciosas comidas.
Depois de vários dias, o pescador se despediu.
As pessoas da aldeia pediram a ele para não deixar que os outros soubessem de sua existência.
Uma vez lá fora, o pescador encontrou o seu barco e remou para casa, deixando marcas por todo o caminho.
Ele relatou a sua aventura ao prefeito, que imediatamente enviou pessoas para ver o local, com o pescador como guia.
No entanto, as marcas que ele havia deixado, já não podiam ser encontradas.
Eles se perderam e não conseguiram encontrar o caminho para a aldeia.

Nota: Esta lenda e sua pintura se encontram no grande corredor do palácio de verão em Pequim, corredor esse que mede 728 metros de comprimento, possuindo uma rica decoração e mais de 14 mil pinturas como a dessa lenda das flores de pessegueiro.

A expressão shìwaì taóyuán 世外桃源, literalmente: “Fonte de pêssegos de fora deste mundo”, se tornou uma expressão popular Chinesa, que quer dizer: “um lugar fantástico inesperadamente fora do caminho usual, geralmente de uma natureza intocada e de grande beleza.”

Pra sempre sol

sol

Me disseram : “você vai ser pra sempre só”
Eu entendi “pra sempre sol”
E percebi que antes sol que mal iluminado.

– Mateus Santana
(vi no facebook)

Flores de Algodoeira

Mana,
é… comovente

Estas flores, brancas e vermelhas, úmidas e mansamente curvadas
dentro deste azul que se acumula como água de um poço,
foi você mana,
foi você quem as floresceu, não foi?

Este azul de outono — ecoaria num toque de dedo
e até as rochas se esfarelariam todas…

Não foi você, que atravessou aquela dormente primavera
Não foi você, que atravessou aquele imenso verão,
e curvando-se de cima a baixo por essa ladeira de plântagos
fez que florescessem, não foi?

Seo Jeong-Ju

Poema reunido por Ji Hyun Lee no livro
“O Pássaro que comeu o sol: poesia moderna da Coréia”.
Tradução de Yun Jung Im