A eternidade e o desejo

A eternidade e o desejo, são duas coisas tão parecidas, que ambas se retratam com a mesma figura.

António Vieira in “Sermões” (Sermão De Nossa Senhora Do Ó)

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Matos impuros

Gilda, a mais velha, sabia rimar. O pai deu contorno ao futuro: a moça seria poetisa.
Mais ela versejava, menos a vida nela versava. Esse era o cálculo de Rosaldo: quem assim sabe rimar, ordena o mundo como um jardineiro. E os jardineiros impedem a brava natureza de ser bravia, nos protegem dos impuros matos.

Mia Couto in “O Fio da Missangas” (As Três irmãs)

Sobrou-me o que sou

Nos olhos dele aprendi a ler Vieira, como no seu corpo aprendi a saborear o desejo infinito, o desejo como experiência da eternidade.
Para essa experiência não tenho palavras. Nem sequer silêncio. Dessa experiência, sobrou-me o que sou.

Inês Pedrosa in “A Eternidade e o Desejo”

O mais cego

Amor… Eu depositava tanta fé nele.
Verdade… Eu continuava a acreditar que ela sai dos lábios da pessoa que mais amamos e em quem mais confiamos.
Confiança… Está intimamente ligada ao amor e à verdade.
Onde termina um e começa outro?
Como saber que o amor é o mais cego?

V. C. Andrews in “A Saga Dos Foxworth – O Jardim Dos Esquecidos”

Possibilidade de paz

Que te dizer? Que te amo, que te esperarei um dia numa rodoviária, num aeroporto, que te acredito, que consegues mexer dentro-dentro de mim? É tão pouco. Não te preocupa. O que acontece é sempre natural — se a gente tiver que se encontrar, aqui ou na China, a gente se encontra. Penso em você principalmente como a minha possibilidade de paz — a única que pintou até agora, “nesta minha vida de retinas fatigadas”. E te espero. E te curto todos os dias. E te gosto. Muito.

Caio Fernando Abreu in “Cartas”

Ofertas de Aninha (aos moços)

Eu sou aquela mulher
a quem o tempo
muito ensinou.
Ensinou a amar a vida.
Não desistir da luta.
Recomeçar na derrota.
Renunciar a palavras e pensamentos negativos.
Acreditar nos valores humanos.
Ser otimista.
Creio numa força imanente
que vai ligando a família humana
numa corrente luminosa
de fraternidade universal.
Creio na solidariedade humana.
Creio na superação dos erros
e angústias do presente.
Acredito nos moços.
Exalto sua confiança,
generosidade e idealismo.
Creio nos milagres da ciência
e na descoberta de uma profilaxia
futura dos erros e violências
do presente.
Aprendi que mais vale lutar
do que recolher dinheiro fácil.
Antes acreditar do que duvidar.

Cora Coralina in “Melhores Poemas”

Hoje seria o 128º aniversário de Cora Coralina

A Proteção Pungente

Ela não podia olhar para seu pai quando ele tinha uma alegria. Porque ele, o forte e amargo, ficava nessas horas todo inocente. E tão desarmado. Oh, Deus, ele esquecia que era mortal. E obrigava a ela, uma criança, a arcar com o peso da responsabilidade de saber que os nossos prazeres mais ingênuos e mais animais também morrem. Nesses instantes em que ele esquecia que ia morrer, ele a tornava a Pietá, a mãe do homem.

Clarice Lispector in “A Descoberta do Mundo”

Caleidoscópios

As palavras são caleidoscópios onde as coisas se transformam noutras coisas. As palavras não têm cor — por isso permanecem quando as cores desmaiam.

Inês Pedrosa in “A Eternidade e o Desejo”

Doces palavras

“Por favor, fique comigo essa noite.”
Ah, que doces palavras ele tem. Ele sabe o que dizer, as palavras certas.
Então não suporto, quero calá-lo e meus lábios tocam os dele. Suaves, mornos, perdendo a timidez aos poucos. Invado, misturo, tornado. Dentro de mim cresce a chama, quero-o. Quero dizer-lhe que o amo, que ficarei para sempre, mas não há tempo, não há espaço. Beijo-lhe a ponta da orelha, seu pescoço e clavícula. Qual o peso do fardo que ele carrega?
Seu peito em ondas onde emergem duas pérolas. Quero saboreá-las de tão preciosas que são para mim.
Suas costelas escondem seu coração, a verdade é que quero abri-las, rasgando-lhe a carne e com mãos sangrentas abrir-lhe o coração. Quero morar nele, sozinho, senhor supremo de todo sentimento que existe nessa alma.
Dobro seu corpo, enrolo, alfineto. Somos um em erupção.
Então ele me abandona, exausto, na serenidade do sono satisfeito. Me deixa só, novamente, a velá-lo, idolatrá-lo.
Ouço-o murmurar meu nome.
Ah, que doces palavras ele tem. Pena que o momento certo já não está mais entre nós.

Poetriz

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Amor medieval

Deitei-me na única cama desocupada e comecei a ler a respeito do Rei Arthur e dos Cavaleiros da Távola Redonda. E, por incrível que pareça, naquele dia abriu-se para mim uma porta de cuja existência eu nem suspeitava; um mundo maravilhoso, onde florescia a cavalaria, existia amor romântico, e lindas donzelas eram colocadas em pedestais e adoradas a distância.
Naquele dia, iniciou-se para mim um caso de amor com a Era Medieval – um amor que nunca mais teve fim.

V. C. Andrews in “A Saga Dos Foxworth – O Jardim Dos Esquecidos”