Conviver é difícil

Tudo isso é tão íntimo, e eu já estou tão desacostumado de me contar inteiramente a alguém, tão desacreditando na capacidade de compreensão do outro, sei lá, não é nada disso, sabe? Conviver é difícil — as pessoas são difíceis — viver é difícil paca.

Caio Fernando Abreu in “Cartas”

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Inseguro de mim mesmo

Porque eu tô ainda muito inseguro de mim mesmo, e não acreditando absolutamente que alguém possa me curtir bem assim como eu sou.

Caio Fernando Abreu in “Cartas”

Sossega

A solidão às vezes é tão nítida como uma companhia. Vou me adequando, vou me amoldando. Nem sempre é horrível. As vezes é até bem mansinha. Mas sinto tão estranhamente que amor acabou. [.. .] Repito sempre: sossega, sossega — o amor não é para o teu bico.

Caio Fernando Abreu in “Carta a Jacqueline Cantore”

Paranóias

Eu me sinto às vezes tão frágil, queria me debruçar em alguém, em alguma coisa. Alguma segurança. Invento estorinhas para mim mesmo, o tempo todo, me conformo, me dou força. Mas a sensação de estar sozinho não me larga. Algumas paranóias, mas nada de grave. O que incomoda é esta fragilidade, essa aceitação, esse contentar-se com quase nada. Estou todo sensível, as coisas me comovem.

Caio Fernando Abreu in “Cartas”

Possibilidade de paz

Que te dizer? Que te amo, que te esperarei um dia numa rodoviária, num aeroporto, que te acredito, que consegues mexer dentro-dentro de mim? É tão pouco. Não te preocupa. O que acontece é sempre natural — se a gente tiver que se encontrar, aqui ou na China, a gente se encontra. Penso em você principalmente como a minha possibilidade de paz — a única que pintou até agora, “nesta minha vida de retinas fatigadas”. E te espero. E te curto todos os dias. E te gosto. Muito.

Caio Fernando Abreu in “Cartas”

Penso em desistir

Às vezes eu penso em desistir, eu acho que não agüento essa aprendizagem toda outra vez — fico tentado a desistir. Não sei bem por que insisto, posso dizer apenas frases feitas sobre isso, mas na verdade não sei.

Caio Fernando Abreu in “Cartas”

De um jeito torto, mas bonito

Tô feliz com os 30: acho que fiz tudo do jeito melhor, meio torto, talvez, mas tenho tentado da maneira mais bonita que sei.

Caio Fernando Abreu in “Cartas”


Por aqui, mais um inverno pra mim. 🙂

Cartas sem selo – I

Caro autor,

Soube do fim do seu relacionamento. Todo fim nos abre um leque de novas oportunidades. As vezes, é um tapa na cara que a vida nos dá, pra gente sair da zona de conforto e ir atrás de algo que nos lembre que nosso coração palpita de verdade.
Mas guarde esse amor em seu coração com carinho. Todo amor é válido e nos ensina algo sobre amar, a gente e ao outro.
Vejo que a superação veio na forma de estudo. É bom, fico contente. Sonhos existem pra isso mesmo, para serem realizados.
Espero que realize todos. Das duas graduações, de um grande amor.
Eu fiz duas graduações. Não ao mesmo tempo, deus me livre! Consome a gente, desgasta. Deixa a gente preguiçoso de viver e ao mesmo tempo com uma ânsia muito grande de realizar coisas grandes.
Estou agora nesse “hiatus”. Da vida, do sonho, das realizações. Dá um pouco de esperança ver que outras pessoas ainda vivem, sonham, realizam.

Com carinho,

P.

Cartas ao amor ausente – III

Pai,

Hoje faz doze anos ou mil anos, não sei exatamente. E sempre choro ao lembrar de você.
Também os sonhos mudaram, cada vez mais esparsos. Acho que o último foi no seu aniversário. A V. que reclama que nunca sonha com você. Mas sonhar é pouco, um abraço seria muito melhor.
Aqui tua ausência foi preenchida com muitos cachorros. Perdeu-se a conta. Era amor demais para dar e um vazio muito grande pra preencher.
Eles trazem alegria e barulho. Tem horas que até incomodam. Mas como não amar essas criaturas abandonadas pela vida?
Billy é o caçula, em ordem de chegada. Ele é o único menino entre elas, entre nós.
Ele também sofreu uma perda recente, esse é o único que não foi largado na rua. Billy tinha lar e amor. Alguém que cuidava de sua doença. Ele tem epilepsia.
Estamos em época de olimpíadas. E não tem mais graça assistir vôlei ou futebol sem seus comentários. Ou qualquer outro esporte. Eu digo para os outros que eu não ligo, não acompanho. Mas a verdade é outra.
Ontem resolvi ver um trecho de um jogo de volei, mas não suportei e fui dormir.
Acordei de madrugada, com os gritos da V., porque o Billy estava convulsionando.
Parece que ontem também, ele teve uma emoção muito forte ao rever uma amiga da ex-dona dele.
Ele ficou mais de uma hora convulsionando e eu fiquei ao lado dele, acariciando sua testa, esperando ele se acalmar.
Você se lembra?
Afinal, o que mais se pode fazer quando a saudade bate tão forte assim?
Fiquei ali, até que meu coração também se acalmou.

F.

#BEDA19

Carta ao amor ausente – II

L.

Nessa noite sonhei com você, que me abraçava forte. Na história, porque meus sonhos são histórias, você fugia de um amor unilateral, me usava como consolo – um consolo que era eu quem precisava – e me oferecia doces.
Não tinha teu rosto, porque os sonhos misturam lembranças, lugares, pessoas, num caleidoscópio mágico. Mas senti o calor do teu abraço e reconheci sua alma visitando a minha.
Eu sei, foi minha alma que foi te buscar no meio da noite e te encontrou pela manhã. O sol já invadia as frestas da janela do meu quarto. Tanto, que quando acordei desse sonho bom, já me sentindo amparada, não consegui voltar a dormir. Mas a sensação calorosa do teu abraço, não me abandonou por toda a manhã e me fez sentar nessa mesa, para escrever essa carta.
Teu novo quarto tem paredes azuis? Teu quarto antigo era o céu, não era? Por isso as paredes eram azuis. Aqui tudo é branco e cinza, e talvez isso esteja afetando – finalmente – meu espírito.
Os anos passam e não te esqueço.
Vi teu bilhete. Não tive vontade ou tempo de respondê-lo. Tenho perdido a vontade de tudo, até de viver.
Não sei se foram boas as decisões que tomei, tenho medo do futuro que está tão próximo. Tudo tem dado tão errado que me faz repensar. Mas não se volta no passado, não é? Um passo dado à frente, não tem volta.
Oh, amigo meu, como eu te amo e me sinto culpada por derramar esse problemas em ti…
Vi um filme chinês outro dia e achei linda uma linda mensagem na fala dos personagens. Dois amigos despediam-se, um deles iria à uma batalha sem volta, era certa sua morte. Pediu ao amigo que ficava que cuidasse de sua família e era muito grato pelos anos de amizade. Suas palavras, de despedida, eram um acordo: “na próxima vida, quero ser seu irmão”.
Vê, que linda mensagem? Numa próxima vida – porque eles acreditam nisso – queriam que os laços entre eles fossem mais próximos ainda. Num mundo de milhões de almas, de milhões de novas oportunidades, queriam se reencontrar e manter os laços, serem mais que amigos, seriam irmãos. Isso é gratidão, é confiança, é amor.
Peço desculpas por minha alma ter ido buscar a tua. Volta para teu sono, pra tua vida, que espero do fundo do meu coração, que seja mil vezes melhor do que você tinha temido esperado.
Numa próxima vida, amigo meu, também quero te reencontrar.

F.