Não deixará de tresvariar

O amor deixará de variar, se for firme, mas não deixará de tresvariar, se é amor. (…) Nunca houve enfermidade no coração, que não houvesse fraqueza no juízo. Por isso os mesmos Pintores do Amor lhe vendaram os olhos. E como o primeiro efeito, ou a última disposição do amor, é cegar o entendimento, daqui vem, que isto que vulgarmente se chama amor, tem mais partes de ignorância: e quantas partes tem de ignorância, tantas lhe faltam de amor. Quem ama, porque conhece, é amante; quem ama, porque ignora, é néscio. Assim como a ignorância na ofensa diminui o delito, assim no amor diminui o merecimento. Quem, ignorando, ofendeu, em rigor não é delinquente; quem, ignorando, amou, em rigor não é amante.

Inês Pedrosa in “A Eternidade e o Desejo”

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Regresso

O meu entusiasmo magoa-te, leio-te a ofensa na voz enquanto me dizes coisas banais e sensatas, que não crie demasiadas expectativas, que ninguém consegue regressar ao lugar onde foi feliz. Conheço muito mais do Brasil do que a felicidade, Sebastião. Como se alguém pudesse regressar ao lugar onde foi infeliz. Não se é duas vezes infeliz da mesma maneira, e ninguém é feliz de maneira nenhuma. Inventamos aquilo de que nos queremos lembrar, isso sim.

Inês Pedrosa in “A Eternidade e o Desejo”

Matilha uivante

A matilha é o princípio da vingança. Mesmo o vingador solitário traz uma matilha uivante dentro de si.

Inês Pedrosa in “A Eternidade e o Desejo”

Um filho teu

Digo-te que tudo isso me parece muito dramático, enquanto dramaticamente penso que não me importaria de ter um filho teu, Clara, eu que nunca pensei em ter filhos, e, vê lá tu, sinto o contrário do homem desse filme, nem que amasses essa criança mais do que a tua própria vida eu ficava feliz, Clara, pelo menos era uma parte de mim que amavas, pelo menos terias suspirado de prazer no meu corpo.

Inês Pedrosa in “A Eternidade e o Desejo”

Acreditas em tudo

Se o avião cair, Claríssima, pelo menos morro contigo, eu nem sequer tenho medo de morrer, mas não é isso que te digo, pergunto-te se achas que os tipos abrem as portas a ateus, mas pergunto-te esta parvoíce só para não ficar calado, só para tu não perceberes o meu pavor, o meu amor, a comoção de estar assim contigo a voar para não sei onde, para os braços do teu amante morto, para o colo do teu Padre Eterno, para dentro e fora de ti ao mesmo tempo, eu sei que tu não és ateia, Clara, acreditas em tudo, só não acreditas em mim.

Inês Pedrosa in “A Eternidade e o Desejo”

Música favorita

Ris-te sempre que dizes a palavra invisuais. O teu riso é a minha música favorita, Clara, mas não posso dizer-te isto, deixavas logo de rir.

Inês Pedrosa in “A Eternidade e o Desejo”

Graças pequenas

— Não sabes a Graça que há nas graças pequenas. Não sonhas como preciso dela.
— Dá-me a tua mão, e guarda nela agora o meu silêncio.

Inês Pedrosa in “A Eternidade e o Desejo”

Sobrou-me o que sou

Nos olhos dele aprendi a ler Vieira, como no seu corpo aprendi a saborear o desejo infinito, o desejo como experiência da eternidade.
Para essa experiência não tenho palavras. Nem sequer silêncio. Dessa experiência, sobrou-me o que sou.

Inês Pedrosa in “A Eternidade e o Desejo”

Caleidoscópios

As palavras são caleidoscópios onde as coisas se transformam noutras coisas. As palavras não têm cor — por isso permanecem quando as cores desmaiam.

Inês Pedrosa in “A Eternidade e o Desejo”

Restos de ti

E nunca te teria conhecido. E seria outro – quantos restos de ti fazem parte de mim.

Inês Pedrosa in “Fazes-me Falta”