Esse adeus

E passados os anos, tantos que já nem cabem na lembrança, eu ainda choro como se fosse a primeira despedida. Porque esse adeus, só esse aceno é meu, todo inteiramente meu. Um adeus à medida de meu amor.

Mia Couto in “O Fio da Missangas” (Na tal noite)

 

Ninguéns

Toda a vida acreditei: amor é os dois se duplicarem em um. Mas hoje sinto: ser um é ainda muito. De mais. Ambiciono, sim, ser o múltiplo de nada, Ninguém no plural.
Ninguéns.

Mia Couto in “O Fio da Missangas” (Na tal noite)

Feita de água

Me debruço na varanda e a altura me tonteia. Quase vou na vertigem. Sabem o que descobri? Que minha alma é feita de água. Não posso me debruçar tanto. Senão me entorno e ainda morro vazia, sem gota.

Mia Couto in “O Fio da Missangas” (Na tal noite)

Desbrilhou

Ele gostava assim: a inteira cinza tombando intacta no chão. Pois eu tombei igualzinha àquela cinza. Desabei inteira sob o corpo dele. Depois, me desfiz em poeira, toda estrelada no chão. As mãos dele: o vento espalhando cinzas.
Nesse mesmo pátio em que se estreava me coração tudo iria, afinal, acabar. Porque ele anunciou tudo nesse poente. Que a paixão dele desbrilhara.
Sem mais nada, nem outra mulher havendo. Só isso: a murchidão do que, antes, florescia.
Eu insisti, louca de tristeza.
Não havia mesmo outra mulher? Não havia. O único intruso era o tempo, que nossa rotina deixara crescer e pesar.

Mia Couto in “O Fio da Missangas” (Na tal noite)

Bichos do tempo

Diz-se que a tarde cai. Diz-se que a noite também cai. Mas eu encontro o contrário: a manhã é que cai.
por um cansaço de luz, um suicídio da sombra.
Lhe explico. São três os bichos que o tempo tem: manhã, tarde e noite.
A noite é quem tem asas. Mas são asas de avestruz. Porque a noite as usa fechadas, ao serviço de nada.
A tarde é a felina criatura. Espreguiçando, mandriosa, inventadora de sombras.
A manhã, essa, é um caracol, em adolescente espiral. Sobe pelos muros, desenrodilha-se vagarosa.
E tomba, no desamparo do meio-dia.

Mia Couto in “O Fio da Missangas” (Na tal noite)

Feita de ilusão

Neste Natal, mais uma vez, muda o carro e toca mesmo. O pai faz abrir a mala do automóvel e de lá espreitam embrulhos e celofanes. São mais os enfeites que os conteúdos, mas não é assim mesmo a festa: feita de ilusão e brilhos maiores que as substâncias?

Mia Couto in “O Fio da Missangas” (Na tal noite)

Palavras líquidas

Dentro de mim, vão nascendo palavras líquidas, num idioma que desconheço e me vai inundando todo inteiro.

Mia Couto in “O Fio da Missangas” (O peixe e o homem)

Cara metade

Fosse eu retirada da ausência por desejo de alguém. Me tivesse calhado, ao menos, um homem completo, pessoa acabada. Mas não, me coube a metade de um homem. Se diz, de língua girada: o meu cara-metade. Pois aquele, nem meu, nem cara. E se metade fosse, não seria só a cara, mas todo ele, um semi macho.

Mia Couto in “O Fio da Missangas” (Meia culpa, meia própria culpa)

O meu homem

Há mulheres que querem que o seu homem seja o Sol. O meu quero-o nuvem.
Há mulheres que falam na voz do seu homem. O meu que seja calado e eu, nele, guarde meus silêncios. Para que ele seja a minha voz quando Deus me pedir contas.
No resto, quero que tenha medo e me deixe ser mulher, mesmo que nem sempre sua.
Que ele seja homem em breves doses.
Que exista em marés, no ciclo das águas e dos ventos.
E, vez em quando, seja mulher, tanto quanto eu.
As suas mãos as quero firmes quando me despir. Mas ainda mais quero que ele me saiba vestir. Como se eu mesma me vestisse e ele fosse a mão da minha vaidade.

Mia Couto in “O Fio da Missangas” (Na tal noite)

Isto é viver

O miúdo não teria, por acaso, mais versos? O menino não entendeu.
– Não continuas a escrever?
– Isto que faço não é escrever, doutor. Estou, sim, a viver. Tenho este pedaço de vida – disse, apontando um novo caderninho – quase a meio.

Mia Couto in “O Fio da Missangas” (O menino que escrevia versos)