Carta ao Amor Ausente – IV

P.R.

Sinto demorar tanto tempo para escrever essa carta. Teu nome gritou em meu coração ontem, numa conversa simples, de alguém novo – um amigo – que deseja enviar um cartão de natal. Lembrei de ti, da gente. Chegamos a trocar cartões de natal?

Sabes, guardo todas tuas cartas numa caixa de fita de cetim. Tenho muito apreço pela nossa história que começou há quanto tempo mesmo? Vinte anos?

Ah, como fui feliz! Não sabes o quanto eu fui feliz cada vez que o carteiro chamava e esperava que eu fosse receber aquele envelope colorido, com meu nome gigantemente pintado do lado de fora. Acho que o carteiro também queria saber o conteúdo de nossas conversas.

E nossas conversas? Deviam ser tão tolas quanto uma adolescente pode ser. Lembra que a desculpa era trocar poesias? Trocamos muito mais! Enviávamos pedaços de nossa alma a cada correspondência. Lembro de uma missiva em que me oferecias sorvete de abacaxi. Devo ter respondido que recusava, sempre fui sincera. Não gosto de coisas geladas. Além de atacar minha bronquite, gosto das coisas como são: frescas ou mornas.

Sabe, ontem a noite eu chorei ao lembrar dessa felicidade mansa que deixamos para trás. O tempo é tão avassalador. Fui eu ou foi você que deixou de escrever?

Confesso, apesar da saudade, não tenho coragem de reler as cartas.

Pergunto-me como viveu nesse tempo de ausência. Foi feliz? Achou outra correspondente? Achou outra obsessão? (risos) Lembrei de outra carta, que dizias que tua mãe te alertava sobre essa obsessão. Mas você deve (devia) ser assim: gelado, quente, obsessivo. O poeta que vive intensamente!

Eu sempre fui tímida, polida, sem graça.

Um dia, farei uma fogueira das cartas. Em tua homenagem dançarei ao redor dela, cantarei cantos de amor e cairei no chão em gargalhada. Quero que nossa final despedida seja assim: ardente.

Por ora, peço a Deus que estejas bem.

Só ontem descobri o quanto precisei muito de uma carta amiga, uma poesia qualquer, durante esse ano de pandemia.

Espero que você esteja bem. E que nada tenha lhe faltado durante esses anos que não nos falamos.

Sinto sua falta.

P.

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Mais medo de amar

Não diremos nada. Nem propagandas enganosas, nem ao menos nossos nomes.
Amaremos no silêncio dos que tem mais medo de amar do que de sofrer.

Poetriz

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Do lado de dentro

Um turbilhão, erupção de vulcão,
maremoto vazando pelos olhos.
Um universo desintegrando dentro da gente
E do lado de fora,
as pessoas não ouvem nada
nem imaginam.

E a vida segue.
Porque é assim que tem que ser.

Poetriz

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A idéia

A idéia nasce de uma semente.
Um dia, alguém lhe fala de um jardim florido e você pensa: eu preciso de uma semente.
E aí, não tem volta.
Você pensa em como compra-la, em qual comprar e já se imagina correndo num jardim todo lilás de lavandas.
Depois reflete melhor e pensa que bom mesmo seria ter uma vaso lindo e uma orquídea enfeitando sua casa.
Porém, você segue a vida: trabalha, estuda, cuida dos filhos e dos cachorros, tem outras prioridades e num dia claro de fim do inverno, limpando a calçada da casa, percebe que do meio do concreto, numa fresta pequena, brota uma florzinha dente-de-leão.

A idéia é um sopro de vento que te impulsiona.
Imagine dar um sopro num dente-de-leão: parte das pétalas se desprendem, parte fica presa.
A idéia te transforma.
É preciso soprar novamente e mais uma vez para que todas as pétalas se desprendam.
Na sua mão ficarão apenas o talo e o miolo.
A idéia te liberta.
As pétalas voarão livres ao vento, sem rumo, sem destino.
Algumas se perderão no caminho.
Outras, se tornarão novas flores.
Não tem volta.

Poetriz

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Por aqui, a idéia foi plantada, germinada e agora estou buscando informações, correndo atrás.
Vai ser difícil, eu sei. Vai haver arrependimentos também. Mas vai dar tudo certo no final.
Afinal, não tem volta.
Torçam por mim!

O amor insiste

O amor trazido por aquele amigo ressurgido das cinzas não vingou.
Estava condenado antes mesmo de nascer.
Era amor demais pra mim, tive medo de me afogar e não corresponder em nada. Como aquela pessoa que nunca foi à praia, e indo pela primeira vez, mal toca o pés na água.
Não fazia sentido para mim que no passado não havia acontecido, porque agora seria diferente?

Mas o amor insiste.

E em meio a essas dúvidas, alguém de muito longe e portanto inacessível me trouxe esperança.
Regava meus dias com poesia e palavras doces.
Ele dizia que eu era a melhor coisa do dia dele, sem saber que ele era a melhor coisa do meu dia.
Nunca o disse. Não podia! Ele era inacessível, lembra?
Tão longe, tão comprometido. A geografia e o tempo não nos eram favoráveis.
Se tivéssemos nascido em outra era ou em outro país ou nos encontrado antes.
E apesar de tudo, me trouxe paz e esperança de novo.
Porém, ele se foi.

Eu devia estar distraída.
Ele sentou do meu lado e foi tão gentil, falou-me de sonhos e projetos. De passado e tristeza.
Eu devia estar distraída.
Ele chamou meu nome e olhei para trás. Sorria. Reparou no meu cabelo curto e me peguei sem graça, explicando o que tinha feito.
Disse adeus e levei um sorriso no rosto que não me abandona mais.
Eu devia estar distraída.
Aquelas palavras de agradecimento dizendo o quanto sou legal com ele.
Eu devia estar distraída.
Não o vi na fila do almoço com seus amigos, era o último. Cumprimentou-me com um beijo, deixou que eu passasse em sua frente, trocava palavras sobre comida. Tão descontraído, tão desinteressado!
Então quando sentei sozinha numa mesa, reservada por minha amiga, ele veio me fazer companhia. Havia apenas dois lugares! Eu, ele e então não havia mais ninguém no mundo. Nem no passado, nem no futuro, só a gente ali, sozinhos num restaurante lotado.
Eu devia estar distraída.
Puxei outra mesa para o terceiro lugar.
E antes dela chegar ele iniciou uma conversa pra quebrar o silencio. Eu silenciava? Logo eu, que falo tanto!
Eu devia estar distraída.
Falamos de trivialidades: de endereço e trajetos, de filho, de times e copa, de faculdade e pós.
Caminhamos lado a lado, tínhamos o mesmo destino.
Ele, do lado de fora da calçada! Quem ainda faz isso?
Eu devia estar distraída.
Não percebi a armadilha sendo construída.

O amor não desiste.

Poetriz

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Corações partidos II

Ainda sobre o post citado no texto anterior…

Uma vez já conversei com um amigo sobre essas situações, de tanto a gente se dar mal acabar uma pessoa fria e sem sentimentos. Mas do tempo daquela conversa, hoje posso dizer que raramente isso acontece. Quando no nosso íntimo somos de uma forma, por mais cicatrizes que carregamos, uma hora ou outra, a gente volta a acreditar nas pessoas, no amor, na vida.

Acho que é maravilhoso ter alguém ao nosso lado. Mas a gente sempre tem que ter um “plano b” pra caso isso não ocorra. Nem todo mundo tem a sorte na vida de encontrar a tal “alma gêmea”.
A gente, num momento de mágoa, acha que as pessoas são más e desprezam nossos sentimentos. Mas em contrapartida, a gente também não estaria desprezando o sentimento do outro que decidiu que não nos ama?

Claro que você vai se envolver novamente com alguém. Essas coisas não dá pra prever. O que pode ser feito, no seu próximo relacionamento, é você não cometer os erros passados. Talvez não ser tão ciumento? Ou ligar de vez em quando pra mostrar que se interessa? Ou dar espaço pra ela ter amigas e sair com as amigas as vezes? Ou chama-la pra sair junto com os seus amigos também?
O importante é usar esse momento de dor pra refletir. Ver o que não deu certo, que justificativas lhe deram, o que você acha que foi magoando as pessoas. E talvez mudar, se você achar necessário, apenas se você achar importante.

Cada decepção que a gente sofre, tende a ficar mais exigente no futuro. E cada pessoa é diferente. Talvez você não tenha dado sorte até agora, mas quem sabe a próxima? Mas também não há de se cair no desespero e achar que deve encontrar a mulher da sua vida amanhã, na primeira pessoa que você simpatizar. O amor é construído aos poucos, no dia a dia, e requer que os dois estejam dispostos a faze-lo crescer.

E pra terminar, uma coisa sempre ouvi: “que quem está no fundo do poço só tem uma saída: por cima.”