Poetriz

Sou um pouco de poeta e de atriz na frente do meu compoetador

Se for como eu imagino fevereiro 10, 2010

Arquivado em: Martha Medeiros — poetriz @ 7:25 am

se você for
exatamente como imagino
igualzinho aos meus sonhos
eu vou embora
detesto desmancha-prazeres

Martha Medeiros in “Poesia Reunida”

 

Nudez da verdade fevereiro 9, 2010

Arquivado em: Fernando Sabino — poetriz @ 7:23 am

Todo mundo tem dois olhos para ver, que coisa estranha. É preciso ver a realidade que se esconde além, onde a vista não alcança. Sob o manto diáfano da fantasia, a nudez forte da verdade.

Fernando Sabino in “0 Encontro Marcado”

 

Quando se confia fevereiro 8, 2010

Arquivado em: Rubem Alves — poetriz @ 7:22 am

Mas a pessoa que está ali é mais que um corpo. É um ser humano. Está com medo. Medo da dor. Medo da morte, pois nunca se pode ter certeza. É preciso espantar o medo para que a vida não se encolha. Mas o medo só sai quando se confia.

Rubem Alves in “O AMOR QUE ACENDE A LUA
– O Anestesista”

 

Vávula de escape fevereiro 7, 2010

Arquivado em: Clarice Lispector — poetriz @ 6:22 pm

Se é pobre, não estará me lendo porque ler-me é supérfluo para quem tem uma leve fome permanente. Faço aqui o papel de vossa válvula de escape e da vida massacrante da média burguesia. Bem sei que é assustador sair de si mesmo, mas tudo o que é novo assusta.

Clarice Lispector in “A hora da estrela”

 

Fogão azul fevereiro 6, 2010

Arquivado em: Cotidiano — poetriz @ 5:28 pm

Ontem chegou o fogão novo e branquinho que compramos pra combinar com a cozinha branquinha e cinza que temos. A casa, reformamos tem alguns anos já. Os móveis e eletrodomésticos estamos trocando aos poucos, conforme a urgência e a necessidade. E chegou a vez de dar adeus ao nosso fogão azulzinho cor de céu que tínhamos desde a casa antiga.
Não me recordo de outro antes desse, mas lembro que toda a cozinha era azul antes. Geladeira, armários, pia e fogão. Tudo anil.
Foi nesse fogão que aprendi que lançar batatas de longe para fritar não era muito seguro. Na ocasião, subiu uma labareda até quase o teto. Saí correndo da cozinha e nem quis retirar as batatas depois de prontas. Chamei minha mãe, claro.
Quando compramos o primeiro microondas, ganhamos um livro de receitas básicas de microondas. Lá ensinava a fazer arroz. Fiz uma vez e nunca mais. Achei que ia ser melhor já que não ia precisar ficar vigiando, mas demorou quase uma hora pra ficar pronto. Depois disso, aprendi a fazer arroz no fogão mesmo e tiro de letra. Quinze minutinhos e está pronto meu arroz.
Aliás, gosto muito de cozinhar!
Dia desses inventei de fazer doce de banana, ficou uma delícia!
Meus pratos mais populares em casa são o pavê de abacaxi e o cuscuz de sardinha, que são feitos em ocasiões especiais.
O fogão foi um bom companheiro nesse anos e ainda funcionava bem. Só envelheceu, pobrezinho.
Deixou de ser automático, passou a ser sentimental e a assar mais rápido de um lado que do outro.
Antes de recebermos o novo fogão, estávamos pensando no que fazer com o antigo, porque não queríamos simplesmente jogar fora. E nosso problema teve uma bela solução: o próprio entregador do fogão novo solicitou o fogão antigo como doação. Ele conhece gente que mora nessas regiões atingidas pelas enchentes que perdeu tudo menos a esperança.
Tomara que nosso bom e velho fogão azul, leve um pouco de azul do céu pra quem anda cansado de tanta água…

 

Eu sou vertical fevereiro 5, 2010

Arquivado em: Verso & Prosa — poetriz @ 7:53 am

Mas não que não quisesse ser horizontal.
Não sou árvore com minha raiz no solo
Sugando minerais e amor materno
Para a cada março refulgir em folha,
Nem sou a beleza de um canteiro
Colhendo meu quinhão de Ohs e me exibindo em cor,
Desconhecendo que me despetalo em breve.
Comparados a mim, uma árvore é imortal
E um pendão nada alto, embora mais assombroso,
O que eu quero é a longevidade de uma e a audácia do outro.

À luz infinitesimal das estrelas,
Flores e árvores trescalam seus frios perfumes.
Eu me movo entre elas, mas nenhuma me nota.
Chego a pensar que pareço o mais perfeitamente
Com elas quando estou dormindo —
Os pensamentos esmaecem.
É mais natural para mim deitar.
Céu e eu então animamos a prosa,
Hei de servir no dia em que deitar afinal:
E as árvores aí talvez em mim tocassem e as flores comigo se ocupassem.

- Sylvia Plath
- trad. Vinicius Dantas

 

Se me é negado o amor fevereiro 3, 2010

Arquivado em: Verso & Prosa — poetriz @ 7:25 am

Se me é negado o amor, por que, então, amanhece;
por que sussurra o vento do sul entre as folhas recém nascidas?
Se me é negado o amor, por que, então,
A noite entristece com nostálgico silêncio as estrelas?
E por que este desatinado coração continua,
Esperançado e louco, olhando o mar infinito?

- Rabindranath Tagore

 

Espelhos fevereiro 1, 2010

Arquivado em: Verso & Prosa — poetriz @ 4:50 pm

Sou prata e exacta. Não tenho ideias preconcebidas.
Tudo o que vejo aceito sem reservas
Tal como é, inturvado por aversão ou amor.
Não sou cruel, apenas verdadeira -
O olho de um pequeno deus, de quatro cantos.
A maior parte do tempo medito sobre a parede oposta.
É cor-de-rosa com manchas. Tenho-a olhado tanto
Que julgo ser parte do meu coração. Mas vacila.
Rostos e trevas separam-nos vezes sem conta.

Agora sou um lago. Uma mulher curva-se sobre mim,
Sondando o meu âmbito em busca do que ela é realmente.
Vira-se depois para as velas ou a lua, esses mentirosos.
Vejo-lhe as costas e reflicto-as fielmente.
Ela recompensa-me com lágrimas e um agitar de mãos.
Sou importante para ela. Ela vai e vem.
Todas as manhãs é o seu rosto que substitui as trevas.
Em mim ela afogou uma jovem e em mim uma velha
Ergue-se para ela dia após dia como um terrível peixe.

- Sylvia Plath
- trad. joão ferreira duarte”

 

Verdades janeiro 31, 2010

Arquivado em: Verso & Prosa — poetriz @ 7:23 am

Roubo do hoje a força
Fazendo nascer o amanhã.
Da janela acompanho com olhar
As nuvens do céu.
De novo a sombra sinistra
Tolda tristemente meus sonhos.

Tua imagem me acompanha
Por todos os lugares por onde ando.
E em todos os momentos
É a tua presença que espanta
As brumas do desconhecido.

Não faço perguntas.
Tenho medo das respostas que já sei.
Liberta do invólucro físico
Devolverei a matéria ao pó de que fora feito.

Vivi meus três caminhos na terra.
Purgatório. Inferno. Céu.
Tudo de acordo com meus projetos,
Minhas atitudes,
Procurando não cair nos mesmos erros.

Agora — vago e espero
Entre tropeços e flagelos
O ressurgir da verdade.

- Rabindranath Tagore

 

Trilhos janeiro 30, 2010

Arquivado em: Poetriz — poetriz @ 10:18 am

Toda tarde, na volta da escola, parava naquele mesmo lugar e sentava-se sozinha. Ali, desconheciam, mas a menina sonhava. Expectadora da vida. O lugar, tão incomum para menininhas, era na beira de uma linha de trem onde uma estrada cruzava e havia aquele semáforo diferente, com cancela, que descia toda vez que o trem estava por chegar. Ali, ela aguardava ansiosa o trem das 16hs, sempre infalível, sempre pontual. Tão lindo o trem, todo colorido, reformado especialmente para atender os turistas que faziam diariamente aquele passeio por caminhos que ela desconhecia. Mas sabia que eram lindos.
Um dia, arriscou a colocar o pé perto do trilho, muito perto até tocar o ferro luminoso. E logo encolheu a perna sorrindo. Claro que fez isso exatos 10 minutos antes do sinal avisar que o seu trem ia passar. Ouvira muitas histórias de garotinhas que perderam pernas, braços, cabeças e vidas naquelas vias. Dizem que o trem corta e já sela na hora, nem sangra. Mas não queria presenciar nada disso. Pra ela, o trem passando era um momento mágico, onde ele seguia por paisagens estonteantes rumo a um lugar mais magnífico ainda.
Um dia disseram que além da linha havia lugares muito bonitos também, bastava apenas cruzar os trilhos. Mas ela não era dessas. Aprendeu desde cedo a respeitar os sinais, a fazer as coisas corretamente e jamais em sua vida arriscava. Então não conheceu o que havia do outro lado da linha do trem, nem tinha interesse. O que via dali, de onde sentava esperando o seu trem passar já era suficiente e bastava.
Podia ser mais acessível, mais fácil, só atravessar a linha. Mas o que ela queria estava mais longe, na viagem, no multicolorido trem, nas paisagens que ela imaginava. E mesmo que nunca fizésse aquela viagem, não haveria de se contentar com qualquer coisa. Pra ela sempre foi assim: ou o melhor, ou nada.