Seguir em frente

Seguir em frente

Quando você é criança, você sempre quer que as coisas permaneçam as mesmas. O mesmo professor, a mesma casa, os mesmos amigos…

Esquecer é a parte fácil. Seguir em frente é que dói. Então, às vezes, nós lutamos; tentando manter as peças no lugar. As coisas não podem permanecer as mesmas. Em algum momento, você tem que esquecer. E seguir em frente. Porque não importa o quão doloroso seja, é a única forma de crescermos.

- Grey’s Anatomy
S8E20

Receitas para mulheres tristes

Receitas para mulheres tristes
Ninguém tem a receita da felicidade. Na hora infeliz, de nada valerão os mais elaborados cozidos do contentamento.
Se para algumas mulheres a tristeza é até motor do apetite, não convém empanturrar se nos dias de angústia. O alimento, na infelicidade, não é assimilado e cria gordura. As mais saudáveis beberagens liberam seu veneno quando tomadas por uma mulher aflita.
Hábito salutar é jejuar nos dias de desgraça.
Contudo, no meu largo trato com frutos e verduras, com ervas e raízes, com músculos e vísceras de diversos animais silvestres e domésticos, descobri alguns atalhos de consolação. São cozimentos simples e de baixíssimo risco. Tome os, no entanto, com cautela: o melhor remédio, para algumas, é veneno. Mas faça a prova, tente. Não é bom você afagar sua infelicidade passivamente.
A tristeza constipa. Recorra ao purgante das lágrimas, não fuja do suor. Findo o jejum, prove minhas receitas.

Héctor Abad in “Livro de receitas para mulheres tristes”

Antes de ser contra, informe-se.

Antes de ser contra, informe-se.

A faculdade faz um bem pra gente! Sempre tem a turma com quem a gente se identifica. Sempre tem a aula que a gente gosta mais. Mas o bem maior é não sair criticando coisas sem saber do que se trata.

O tal “Veta, Dilma, o Código Florestal” me irrita. Alguém leu o projeto de lei? Hoje a Amazônia é de ninguém, com a lei pelo menos vamos começar a colocar uma ordem. “Começar”, guardem essa frase. Uma lei não resolve todos os problemas, uma lei chega sempre atrasada a um problema que já conhecemos há tempos. Fora que no Brasil não há fiscalização. Mas se a lei tivesse chegado antes, talvez Belo Monte fosse penalizada ou teria que replantar tudo o  que está destruindo. Não sou contra Belo Monte também, mas pras centenas de pessoas que fizeram propaganda contra e sem nem saber por que, e agora fazem contra o Código Florestal, taí uma coisa pra se pensar.

Mas o que me levou mesmo a escrever esse desabafo foi a tal irritação das pessoas quanto “os valores da cultura popular”. Minha gente, a gente valoriza o que quer. É opinião pessoal. Eu valorizo o conhecimento. Tem gente que valoriza participar da opinião sem causa. E cultura é toda manifestação de um povo. Popular ou erudito é preconceito. Cada grupo tem o seu, age como quer, conforme seus valores e cultura.

Portanto, antes de ir contra. Informe-se.
Você PENSA que parece inteligente transmitindo a informação.
Mas pode estar fazendo papel de palhaço. 

Uma vida de partidas

Uma vida de partidas

“Comecei a me dar conta de que a solidão e o sentimento de abandono me incomodavam mais que a própria doença e seus desdobramentos. A ficha começou a cair graças à população flutuante do IOT. Passei a me questionar: por que todo mundo tinha alta e ia embora? E por que a minha família não vinha me buscar também? Nessas horas, chorava muito.

O sentimento de abandono ficava ainda maior exatamente pela saída dos moradores e visitantes temporários. Quem trabalhava aqui, amigos dos amigos, pessoas que prestavam assistência religiosa e outros personagens saíam de nossas vidas da mesma forma que haviam entrado: de repente. Um por um, quase todos desapareceram, depois de termos criado algum tipo de laço.

Sei que a rotina de hospital, ainda mais numa UTI, não é das mais agradáveis… Muita gente nem tem estômago para entrar aqui. Perdi a conta de quantas pessoas desmaiaram na minha frente. Eu as entendo. Mas não consigo compreender por que alguns começam a nos visitar com constância, criam expectativas e depois desaparecem. São dezenas de casos assim. Pessoas a quem passamos a considerar nossas mães, pais, tios e irmãos. Claro que o sumiço, pelo menos da maioria, tem um motivo. Mas, quando nos apegamos a alguém, a dor da perda é muito grande.”

Eliana Zagui in “Pulmão de Aço”

Se um dia você adoecer de palavras

Se um dia você adoecer de palavras

Se um dia você adoecer de palavras, coisa que acontece com todo mundo, e ficar farta de ouvi‑las, de dizê‑las; se qualquer uma que escolher lhe parecer gasta, sem brilho, deficiente; se sentir náusea ao ouvir um “horrível” ou “divino” sobre qualquer assunto, não será com uma sopa de letras, claro, que vai se curar.
Deve fazer o seguinte: cozinhar um prato de espaguete al dente e temperá‑lo com o molho mais simples — alho, azeite e pimenta vermelha. Sobre a massa já misturada a esses ingredientes, por mais que a etiqueta o condene, rale uma camada de queijo pecorino. Do lado direito do prato fundo cheio de espaguete assim temperado, ponha um livro aberto. Do lado esquerdo, ponha um livro aberto. À frente, um copo cheio de vinho tinto seco. Qualquer outra companhia não é recomendável. Vire ao acaso as páginas de ambos os livros, mas os dois deverão ser de poesia. Só os bons poetas nos curam do fastio de palavras. Só a comida simples e essencial nos cura da saturação da gula.

Héctor Abad in “Livro de receitas para mulheres tristes”