Um filho teu

Digo-te que tudo isso me parece muito dramático, enquanto dramaticamente penso que não me importaria de ter um filho teu, Clara, eu que nunca pensei em ter filhos, e, vê lá tu, sinto o contrário do homem desse filme, nem que amasses essa criança mais do que a tua própria vida eu ficava feliz, Clara, pelo menos era uma parte de mim que amavas, pelo menos terias suspirado de prazer no meu corpo.

Inês Pedrosa in “A Eternidade e o Desejo”

Anúncios

Acreditas em tudo

Se o avião cair, Claríssima, pelo menos morro contigo, eu nem sequer tenho medo de morrer, mas não é isso que te digo, pergunto-te se achas que os tipos abrem as portas a ateus, mas pergunto-te esta parvoíce só para não ficar calado, só para tu não perceberes o meu pavor, o meu amor, a comoção de estar assim contigo a voar para não sei onde, para os braços do teu amante morto, para o colo do teu Padre Eterno, para dentro e fora de ti ao mesmo tempo, eu sei que tu não és ateia, Clara, acreditas em tudo, só não acreditas em mim.

Inês Pedrosa in “A Eternidade e o Desejo”

Cheio de incomodações

No dia em que estiveres muito cheio de incomodações, imagina que morreste anteontem…
Confessa: tudo aquilo teria mesmo tanta importância?

Mario Quintana in “Porta Giratória”

Conviver é difícil

Tudo isso é tão íntimo, e eu já estou tão desacostumado de me contar inteiramente a alguém, tão desacreditando na capacidade de compreensão do outro, sei lá, não é nada disso, sabe? Conviver é difícil — as pessoas são difíceis — viver é difícil paca.

Caio Fernando Abreu in “Cartas”

Não gerava poema

Contudo, a rima não gerava poema. Ao contrário, cumpria a função de afastar a poesia, essa que morava onde havia coração. Enquanto bordava versos, a mais velha das três irmãs não notava como o mundo fosforecia em seu redor.

Mia Couto in “O Fio da Missangas” (As três irmãs)

Ouro

Além do arco-íris o pote de ouro nos aguardava. Mas o arco-íris é feito da mais frágil filigrana e o ouro pesa uma tonelada. Desde o início do mundo, o ouro foi motivo para se fazer quase tudo

V. C. Andrews in “A Saga Dos Foxworth – O Jardim Dos Esquecidos”

Além da porta

Se você encontrar uma porta à sua frente, poderá abri-la ou não. Se você abrir a porta, poderá ou não entrar em uma nova sala. Para entrar, você vai ter que vencer a dúvida, o titubeio ou o medo. Se você venceu, você deu um grande passo: nesta sala vive-se.

Mas também tem um preço: são inúmeras as outras portas que você descobre. O grande segredo é saber quando e qual porta deve ser aberta.

Os erros podem ser transformados em acertos, quando, com eles, se aprende. A vida não é rigorosa: ela propicia erros e acertos. Não existe a segurança do acerto eterno.

A vida é generosa: a cada sala em que se vive, descobre-se outras tantas portas. A vida enriquece a quem se arrisca a abrir novas portas. Ela privilegia quem descobre seus segredos, e generosamente oferece afortunadas portas.

Mas a vida também pode ser dura e severa: se você não ultrapassar a porta, terá sempre a mesma porta pela sua frente. É a repetição perante a criação. É a monotonia cromática perante o arco-íris.

É a estagnação da vida. Para a vida, as portas não são obstáculos…
São apenas diferentes passagens.

Içami Tiba in “Amor, Felicidade & Cia”

Inseguro de mim mesmo

Porque eu tô ainda muito inseguro de mim mesmo, e não acreditando absolutamente que alguém possa me curtir bem assim como eu sou.

Caio Fernando Abreu in “Cartas”

Dores diferentes

Uma vez, conversando com uma amiga, ficamos nessa discussão por horas: o que é mais dolorido, ter o braço quebrado ou o coração? Uma pessoa que foi rejeitada pelo seu amor sofre menos ou mais do que quem levou 20 pontos no supercílio? Dores absolutamente diferentes. Eu acho que dói mais a dor emocional, aquela que sangra por dentro.

Martha Medeiros in “Dor Física x Dor Emocional”

Adoçam o sono

A única memória que me resta: a migalha de um tempo, o único tempo que me deu sonhos. Sob vigilância de minha velha mãe, eu cuidava de não sonhar tudo, nem depressa. Ainda que fossem metades de sonhos, esses pedaços ainda me adoçam o sono, deitada no frio da cela.

Mia Couto in “O Fio da Missangas” (Meia culpa, meia própria culpa)