Flores de Algodoeira

Mana,
é… comovente

Estas flores, brancas e vermelhas, úmidas e mansamente curvadas
dentro deste azul que se acumula como água de um poço,
foi você mana,
foi você quem as floresceu, não foi?

Este azul de outono — ecoaria num toque de dedo
e até as rochas se esfarelariam todas…

Não foi você, que atravessou aquela dormente primavera
Não foi você, que atravessou aquele imenso verão,
e curvando-se de cima a baixo por essa ladeira de plântagos
fez que florescessem, não foi?

Seo Jeong-Ju

Poema reunido por Ji Hyun Lee no livro
“O Pássaro que comeu o sol: poesia moderna da Coréia”.
Tradução de Yun Jung Im

Vibração de silêncio

Nunca nos falamos, praticamente, nunca nos olhamos. Ficou só aquela vibração de silêncio, muito forte.

– Caio F. Abreu

Trecho da carta extraída do livro “O que importa em Oracy”,
organizado por Fátima Friedriczewski,

Junto ao crisântemo

Terá sido para abrir este crisântemo
que o cuco chorou tanto
desde a primavera…

E terá sido para abrir este crisântemo
que o trovão chorou tanto
dentro das nuvens negras…

Flor, pareces a minha amada irmã
de volta agora diante do espelho,
após a longa juventude de longínquas sendas
de peito aflito de saudade e anseio

Terá sido para as tuas douradas pétalas se abrirem
que na noite passada a geada gelou tão fria
e eu não pude nem pegar no sono…

Seo Jeong-Ju

Poema reunido por Ji Hyun Lee no livro
“O Pássaro que comeu o sol: poesia moderna da Coréia”.
Tradução de Yun Jung Im

Tão Secreta

Numa cidadezinha perdida, dois malditos que se reconhecem nem que seja necessário sequer falar sobre isso. Uma cumplicidade muda, e tão secreta que, penso, talvez você nunca tenha percebido.

– Caio F. Abreu

Trecho da carta extraída do livro “O que importa em Oracy”,
organizado por Fátima Friedriczewski,

Ainda me viro

ainda me viro
e me vejo
pronta a te chamar
a te contar
que aprendi hoje
coisas que você soube

ainda te vejo
em cada bicho
em cada pensamento
me surpreendo olhando
com teus olhos de pesquisa
e o que vejo
vira beleza

ainda te sinto
em tudo que permanece
como se tua pressa
de vida que se extingue
ficasse um pouco em tudo
ainda

– Alice Ruiz in “Pelos Pêlos, poemas”

Ah mar!

Amar!!
Ah mar
E pedras a rolar

Assim
Há sim
Um encanto a encontrar

Amar
Assim
Não dá pra controlar
É como se entregar
Sem saber o lugar.
E quando chegar
Ver que é um sonho
De não querer acordar

Ah mar!!

Oscar de Jesus Klemz
Tem mais textos do autor no Recanto das Letras

Minha voz não chega

minha voz
não chega aos teus ouvidos

meu silêncio
não toca teus sentidos

sinto muito
mas isso é tudo que sinto

– Alice Ruiz in “Pelos Pêlos, poemas”

Basta ano novo

Foi um sonho tão forte que acreditei nele por minutos como uma realidade. Sonhei que aquele dia era Ano Novo. E quando abri os olhos cheguei a dizer: Feliz Ano Novo!
Não entendo de sonhos. Mas este me parece um profundo desejo de mudança de vida. Não precisa ser feliz sequer. Basta ano novo. E é tão difícil mudar. Às vezes escorre sangue.

Clarice Lispector in “A Descoberta do Mundo”

Traduzir-se

Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.

Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir uma parte
na outra parte
— que é uma questão
de vida ou morte —
será arte?

Ferreira Gullar in “Na Vertigem do Dia”

Dicionário das Tristezas Obscuras

Descobri o Dicionário das Tristezas Obscuras pelo site Noosfera, que acredito eu, tenha feito a tradução dos verbetes abaixo listados. O artista John Koenig inventou um dicionário de palavras inventadas para exprimir emoções ainda não descritas em dicionários, talvez até porque sejam difíceis de serem explicadas.

Separei algumas que achei interessante.

Adronitis
Frustrar-se com a quantidade de tempo necessário para se conhecer bem alguém.

Ambedo
Um tipo de transe melancólico no qual você se torna completamente absorto por pequenos detalhes sensoriais – pingos de chuva escorrendo pela janela, árvores altas se dobrando lentamente com o vento, espirais de creme se formando no café – o que, por fim, leva a uma avassaladora constatação da fragilidade da vida.

Anchorage
O desejo de segurar o tempo enquanto ele passa, como tentar se segurar em uma pedra no meio de um rio com muita correnteza.

Kairosclerosis
O momento em que você percebe que está feliz – e tenta conscientemente aproveitar essa sensação – o que obriga seu intelecto a identificar e colocar a sensação em um contexto, onde a felicidade lentamente se dissolve até se tornar pouco mais do que um retrogosto.

Lethobenthos
O hábito de esquecer o quão importante uma pessoa é para você, até o momento em que você a encontra pessoalmente.

Liberosis
O desejo de se importar menos com as coisas.

Scabulous
Sentir orgulho de uma cicatriz. Como um autógrafo dado a você pelo mundo.

The Bends
A frustração ao perceber que você não está aproveitando uma experiência tanto quanto deveria.

Trumspringa
A tentação de sair da sua meta de carreira e se tornar pastor de ovelhas nas montanhas.

Zenosyne
A sensação de que o tempo está passando cada vez mais rápido.