A lei do caminhão de lixo

Um dia, peguei um táxi para ir ao aeroporto.
Estávamos rodando na faixa certa,quando de repente um carro preto saiu inesperadamente de um estacionamento á nossa frente.
O taxista, pisando no freio bruscamente, deslizou e escapou de bater em outro carro, foi por um triz !
O motorista do carro preto sacudiu a cabeça e começou a gritar para nós, nervosamente.
Mas, o motorista do táxi , apenas sorriu e acenou para o cara, fazendo um sinal com o polegar, de positivo, e ele o fez de maneira bastante amigável.
Indignado lhe perguntei: – Porque você fez isto? Esse cara quase arruína o seu carro, a nós, e quase nos manda para um hospital !
Foi quando o motorista do táxi me ensinou o que agora eu chamo de “ A Lei do Caminhão de Lixo”.
Ele explicou que muitas pessoas são como Caminhão de Lixo
Andam por ai carregadas de lixo, cheias de frustrações , cheias de raiva, traumas e desapontamentos.
A medida que suas pilhas de lixo crescem, elas precisam de um lugar para descarregar e as vezes descarregam sobre a gente.
Nunca tome isso como pessoal.
Isto não é problema seu. É dele !
Apenas sorria, acene, deseje-lhes sempre o bem e vá em frente.
Não pegue o lixo de tais pessoas e nem o espalhe sobre outras pessoas, no trabalho, EM CASA, ou nas ruas.
Fique tranqüilo…respire , e DEIXE O LIXEIRO PASSAR !
O principio disso é que as pessoas felizes não deixam os caminhões de lixo estragarem o seu dia.
A vida é curta ! não leve lixo com você !
Limpe os sentimentos ruins, aborrecimentos do trabalho,picuinhas pessoais, ódios ou frustrações.
Ame as pessoas que lhe tratam bem, e trate bem as que não o fazem.
A vida, é dez por cento do que você faz dela, e noventa por cento da maneira como você a recebe !
Tenha um bom dia…e lembre-se…LIVRE-SE DOS LIXOS

David J. Pollay in “The Law of the Garbage Truck”

No campo coberto de neve

Está tudo bem,
Está tudo bem,
Está tudo bem,
Está tudo bem-
Os flocos de neve caem aos montes,
Abraçando até o som dos faisões e codornizes
Retornando a seus ninhos.

Está tudo bem,
Está tudo bem,
Está tudo bem,
Está tudo bem-
Os flocos de neve caem como algodão fofo,
Abraçando até mesmo o som das garotas com faces rosadas
Retornando a seus ninhos.

Abraça até o som de todas as fortunas voltando para casa,
O choro,
O riso,
Os sobrecarregados
Agora se tornando fortes.

Para os grandes, grandes traços de lágrimas,
Para os pequenos, pequenas linhas de riso;
O som de grandes histórias e pequenas histórias
Voltando para casa, sussurrando suavemente.

Está tudo bem,
Está tudo bem,
Está tudo bem,
Está tudo bem-
Os flocos de neve caem constantemente,
Abraçando até o som de muitas montanhas –
As Montanhas Azuis* voltando para casa.

Seo Jeong-ju (1915 – 2000)

* Montanhas Azuis: montanhas míticas situadas em algum lugar em China.

PS: A tradução foi feita por mim, livremente. Encontrei um blog só de poemas coreanos. Não constam as obras, infelizmente.

Considerações de Aninha

Melhor do que a criatura,
fez o criador a criação.
A criatura é limitada.
O tempo, o espaço,
normas e costumes.
Erros e acertos.
A criação é ilimitada.
Excede o tempo e o meio.
Projeta-se no Cosmos

Cora Coralina in “Melhores Poemas”

Monólogo das Mãos

As mãos servem para pedir, prometer, chamar, conceder, ameaçar, suplicar, exigir, acariciar, recusar, interrogar, admirar, confessar, calcular, comandar, injuriar, incitar, teimar, encorajar, acusar, condenar, absolver, perdoar, desprezar, desafiar, aplaudir, reger, benzer, humilhar, reconciliar, exaltar, construir, trabalhar, escrever……
As mãos de Maria Antonieta, ao receber o beijo de Mirabeau, salvou o trono da França e apagou a auréola do famoso revolucionário;
Múcio Cévola queimou a mão que, por engano não matou Porcena;
foi com as mãos que Jesus amparou Madalena;
com as mãos David agitou a funda que matou Golias;
as mãos dos Césares romanos decidiam a sorte dos gladiadores vencidos na arena;
Pilatos lavou as mãos para limpar a consciência;
os anti-semitas marcavam a porta dos judeus com as mãos vermelhas como signo de morte!
Foi com as mãos que Judas pôs ao pescoço o laço que os outros Judas não encontram.
A mão serve para o herói empunhar a espada e o carrasco, a corda;
o operário construir e o burguês destruir;
o bom amparar e o justo punir;
o amante acariciar e o ladrão roubar;
o honesto trabalhar e o viciado jogar.
Com as mãos atira-se um beijo ou uma pedra, uma flor ou uma granada, uma esmola ou uma bomba!
Com as mãos o agricultor semeia e o anarquista incendeia!
As mãos fazem os salva-vidas e os canhões;
os remédios e os venenos;
os bálsamos e os instrumentos de tortura, a arma que fere e o bisturi que salva.
Com as mãos tapamos os olhos para não ver, e com elas protegemos a vista para ver melhor.
Os olhos dos cegos são as mãos.
As mãos na agulheta do submarino levam o homem para o fundo como os peixes;
no volante da aeronave atiram-nos para as alturas como os pássaros.
O autor do “Homo Rebus” lembra que a mão foi o primeiro prato para o alimento e o primeiro copo para a bebida;
a primeira almofada para repousar a cabeça, a primeira arma e a primeira linguagem.
Esfregando dois ramos, conseguiram-se as chamas.
A mão aberta, acariciando, mostra a bondade;
fechada e levantada mostra a força e o poder;
empunha a espada a pena e a cruz!
Modela os mármores e os bronzes;
dá cor às telas e concretiza os sonhos do pensamento e da fantasia nas formas eternas da beleza.
Humilde e poderosa no trabalho, cria a riqueza;
doce e piedosa nos afetos medica as chagas, conforta os aflitos e protege os fracos.
O aperto de duas mãos pode ser a mais sincera confissão de amor, o melhor pacto de amizade ou um juramento de felicidade.
O noivo para casar-se pede a mão de sua amada;
Jesus abençoava com as mãos;
as mães protegem os filhos cobrindo-lhes com as mãos as cabeças inocentes.
Nas despedidas, a gente parte, mas a mão fica, ainda por muito tempo agitando o lenço no ar.
Com as mãos limpamos as nossas lágrimas e as lágrimas alheias.
E nos dois extremos da vida, quando abrimos os olhos para o mundo e quando os fechamos para sempre ainda as mãos prevalecem.
Quando nascemos, para nos levar a carícia do primeiro beijo, são as mãos maternas que nos seguram o corpo pequenino.
E no fim da vida, quando os olhos fecham e o coração pára, o corpo gela e os sentidos desaparecem, são as mãos, ainda brancas de cera que continuam na morte as funções da vida.

(E a imagem consoladora do Nazareno pregado à Cruz, vai conosco para debaixo da terra em nossas mãos cruzadas sobre o peito.)

E as mãos dos amigos nos conduzem…
E as mãos dos coveiros nos enterram!

Oduvaldo Vianna in “O Vendedor de Ilusões”,
escrita para Procópio Ferreira em 1931

Tão cedo passa tudo quanto passa!

Tão cedo passa tudo quanto passa!
Morre tão jovem ante os deuses quanto
Morre! Tudo é tão pouco!
Nada se sabe, tudo se imagina.
Circunda-te de rosas, ama, bebe
E cala. O mais é nada.

Fernando Pessoa in “Poemas Completos de Ricardo Reis”

Ninguém ensina

Pouco a pouco fui vendo mais claramente o defeito mais difundido de nossa maneira de ensinar e de educar. Ninguém aprende, ninguém aspira, ninguém ensina — a suportar a solidão.

Friedrich Nietzsche in Aurora.

Resenha: A Noiva Fantasma


Livro: A Noiva Fantasma
Autor (a): Yangsze Choo
Editora: DarkSide® Books
Páginas: 360

Nota: 3
(sendo: 1- Não gostei 2- Gostei pouco; 3- Gostei; 4- Gostei bastante; 5- Adorei)

Sinopse:
Certa noite, meu pai me perguntou se eu gostaria de me tornar uma noiva fantasma…
1893. Li Lan é uma jovem que recebeu educação e cultura, mas que vive sem grandes perspectivas depois da falência de seus pais. Até surgir uma proposta capaz de mudar sua vida para sempre: casar-se com o herdeiro de uma família rica e poderosa. Há apenas um detalhe: seu noivo está morto.

A Noiva Fantasma é o surpreendente romance de estreia de Yangsze Choo, a escritora de ascendência oriental que está encantando fãs por todo o mundo.
Por mais fantásticas que pareçam, as noivas fantasmas ainda resistem até hoje em parte da cultura asiática. A prática, que chegou a ser banida por Mao Tsé-Tung durante a Revolução Cultural, foi muito frequente na China e na Malaia (hoje Malásia) no final do século XIX. O casamento era usado para tranquilizar um espírito inquieto, e garantir um lar e estabilidade para as mulheres que diziam sim a maridos já falecidos. É claro que elas tinham um preço alto a pagar, e com Li Lan não seria diferente.
Evocando obras como Lugar Nenhum, de Neil Gaiman, essa obra é uma história impressionante sobre o amor sobrenatural e sobre o amadurecimento, escrita por uma extraordinária nova voz da ficção contemporânea.

Levei uma eternidade para ler esse livro, primeiramente por causa da faculdade que estava me consumindo e depois porque meu kindle havia sumido! Ultrapassados esses dois problemas, o livro engatou e finalmente terminei de lê-lo.
A história não difere muito da sinopse. Entretanto, há um quadrado triângulo amoroso, se assim podemos chamar. Li Lan, a mocinha, é apaixonada pelo primo de seu suposto noivo, que está morto. O suposto noivo aparece em sonhos para assombrá-la e revela que foi assassinado pelo primo, por quem Li Lan está apaixonada. Entre superstições, feitiços, remédios de exorcismo, algo dá errado e Li Lan fica em coma. Sua alma se desprende do corpo e ela passa a investigar, no mundo dos mortos, essa história de seu amor ter assassinado seu noivo.
O noivado na verdade não existiu, foi apenas cogitado. Talvez nisso, o nome do livro tenha perdido um pouco o sentido.
Nessa travessia no mundo dos mortos, achei bem interessante um lugar chamado “planície dos mortos” que não saberia traduzir pra qualquer outra crença. É um lugar onde os mortos ficam aguardando seu julgamento, lá eles vivem numa cidade espelho de onde viveram anteriormente. Entretanto, essa cidade espelho é feita apenas das oferendas queimadas nos rituais para o os mortos.
Esse lugar me lembrou muito o “Hueco Mundo” do anime Bleach e os serviçais que eram bonecos de papeis me fizeram imaginá-los como as cartas da rainha de copas, da animação “Alice no País das Maravilhas”. E também a grande revelação sobre o personagem Er Lang foi nitidamente copiado inspirado na animação “A viagem de Chihiro”
Em nenhum momento achei a história sombria, mas achei a escrita um pouco arrastada em algumas partes e corrida em outras. Nunca saberemos o resultado das investigações de Er Lang (o que de fato aconteceu e não se os fantasmas eram culpados ou não).
Foi uma boa tentativa de misturar as crenças e superstições malaias, bem aproveitada.
Achei interessante, principalmente porque amo essa cultura asiática. Mas eu, como curiosa, esperava muito mais.

Era para ser

Era pra ser canção de amor
Era o amor em versos
Era pra ser sobre você e eu e o meu deserto
Era pra ser para você, sempre você, pra sempre
Era pra poder ficar eternamente no presente

O amor soprou de outro lugar
Pra derrubar o que houvesse pela frente
Tenho que te falar
Essa canção não fala mais da gente

Maria Bethânia
♫ Era pra Ser ♫

A despedida do amor

Existe duas dores de amor. A primeira é quando a relação termina e a gente, seguindo amando, tem que se acostumar com a ausência do outro, com a sensação de rejeição e com a falta de perspectiva, já que ainda estamos tão envolvidos que não conseguimos ver luz no fim do túnel.

A segunda dor é quando começamos a vislumbrar a luz no fim do túnel.

Você deve achar que eu bebi. Se a luz está sendo vista, adeus dor, não seria assim? Mais ou menos. Há, como falei, duas dores. A mais dilacerante é a dor física da falta de beijos e abraços, a dor de virar desimportante para o ser amado. Mas quando esta dor passa, começamos um outro ritual de despedida: a dor de abandonar o amor que sentíamos. A dor de esvaziar o coração, de remover a saudade, de ficar livre, sem sentimento especial por ninguém. Dói também.

Na verdade, ficamos apegados ao amor tanto quanto à pessoa que o gerou. Muitas pessoas reclamam por não conseguir se desprender de alguém. É que, sem se darem conta, não querem se desprender. Aquele amor, mesmo não retribuído, tornou-se um suvenir de uma época bonita que foi vivida, passou a ser um bem de valor inestimável, é uma sensação com a qual a gente se apega. Faz parte de nós. Queremos, logicamente, voltar a ser alegres e disponíveis, mas para isso é preciso abrir mão de algo que nos foi caro por muito tempo, que de certa maneira entranhou-se na gente e que só com muito esforço é possível alforriar.

É uma dor mais amena, quase imperceptível. Talvez, por isso, costuma durar mais do que a dor-de-cotovelo propriamente dita. É uma dor que nos confunde. Parece ser aquela mesma dor primeira, mas já é outra. A pessoa que nos deixou já não nos interessa mais, mas interessa o amor que sentíamos por ela, aquele amor que nos justificava como seres humanos, que nos colocava dentro das estatísticas: eu amo, logo existo.

Despedir-se de um amor é despedir-se de si mesmo. É o arremate de uma história que terminou, externamente, sem nossa concordância, mas que precisa também sair de dentro da gente.

Martha Medeiros in “A Despedida do Amor”, 2001.
Nota: Texto originalmente publicado na coluna de Martha Medeiros,
no website Almas Gêmeas, a 6 de agosto de 2001.

Dizem que

Dizem que o ouro
se encontra em águas claras
Mas nem toda água clara
o guarda

Dizem que o jade
se encontra nas montanhas
Mas nem toda montanha
o guarda

Dizem que o amor é o mais importante
Mas podemos buscar
a todos que amamos?

Bag Peng-Nyón (1417-1456) in “Sijô, Poesiacanto Coreana Clássica”