Arroz

Para você que diz comer muito por estar sozinho.
Para você que diz dormir muito por estar entediado.
Para você que diz chorar muito por estar triste.
Escrevo para você.
Mastigue seu coração apertado como se fosse arroz.
Porque não importa o que aconteça,
a vida foi feita para você digeri-la.

Yang-Hee Cheon in “Let’s eat”

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Esse adeus

E passados os anos, tantos que já nem cabem na lembrança, eu ainda choro como se fosse a primeira despedida. Porque esse adeus, só esse aceno é meu, todo inteiramente meu. Um adeus à medida de meu amor.

Mia Couto in “O Fio da Missangas” (Na tal noite)

 

A carta que escrevi para mim mesma

Estou escrevendo esta carta para lembrar que sou uma mulher incrível.
Forte, linda, determinada e capaz.
Sim, essa sou eu.
Dona de mim, das minhas verdades e com essa capacidade encantadora de me reerguer quando ninguém mais acredita.
Estou escrevendo para que nunca me esqueça dos reais motivos pelos quais cheguei até aqui e por quem continuarei a lutar.
Para lembrar da menina que fui na infância e não permitir que ela morra aqui dentro.
Para jamais esquecer que eu sou a responsável por realizar todos os sonhos daquela garota.
Somente eu.
Ninguém mais.
Pretendo recorrer a essas linhas aqui se um dia me sentir sozinha, se um dia um grande amor me deixar, se por um acaso eu me sentir fraca, se por um acaso em algum momento a tristeza vier me visitar.
Nestes momentos então eu lerei essas palavras e voltarei a sorrir.
E voltarei a me amar.
Ei, versão minha que agora lê essa carta.
Quero que nunca se esqueça que você já passou por momentos complicados antes; e venceu. Que já caiu outras vezes; e se levantou.
Quero te lembrar que você tem com quem contar. Sempre.
Que existe um Deus lá em cima que é melhor planejador que você. Que conhece o seu coração e que jamais te daria um fardo que você não fosse capaz de carregar.
Quero te dizer que eu acredito em você.
Que não sei ainda por qual motivo você voltou a ler essa carta hoje, mas que tenho certeza que achará uma solução.
Porque você sempre acha. Porque você sempre consegue.
Porque você tem uma fé e uma força de vontade que juntas são capazes de escancarar todas as portas.
Pelo que bem te conheço, ou melhor, me conheço, sei que deve ter chegado nesta parte da carta chorando.
Pois chegou a hora de enxugar esse rosto lindo, guardar essa folha naquela nossa gaveta secreta e voltar a encarar a vida de cabeça erguida e o sorriso de sempre.
Espero que demore a ter que ler tudo isso outra vez, mas, sempre que precisar, essas palavras estarão aqui.
Eu te amo e confio em ti.
Você veio a este mundo para ser e fazer as pessoas ao seu redor felizes. Não perca o foco.

– Rafael Magalhães in “Precisava Escrever”

Pedi um amor

Pedi um amor e ele me deu um bolo mofado. “Eu pedi amor”, disse.

– Isso é amor.
– Mas não vai me fazer mal?
– Talvez.

Olhei e novo e percebi uma larvinha de mosca saindo da cobertura.

– Vai querer ou não? – Ele olhava a larva também.
– Não sei. – A larvinha agora afundava cada vez mais no bolo.
– Eu não vou ficar parado o dia todo aqui, sabe.

Lembrei que não sabia cozinhar e levei o bolo para a casa. Primeiro tentei tirar tudo que se movia na cobertura, mas era impossível . Me contentei em raspar o mofo, fechar os olhos e engolir uma garfada.

Vomitei.

Dormi com o estômago roncando e acordei com dor de barriga dos infernos. Não saí de casa nos próximos três dias: sem amor, não tinha vontade de tomar banho nem de escovar os cabelos. Não queria olhar o céu e nem os olhos das pessoas. No quinto dia sem amor, não quis abrir as pálpebras muito menos as janelas da casa.

Prestes a perder as forças, olhei para a mesa e resolvi tentar de novo. O estômago reclamou, mas não devolveu. O intestino resolveu não opinar. Fui dormir indigesta e ao mesmo tempo aliviada. Pela manhã, as maquiagens do banheiro voltaram a fazer sentido. As roupas no chão pediram para serem penduradas. A maçaneta da porta pedia para ser girada e eu obedeci.

A cada passo, sentia o estômago revirar, mas também sentia que estava viva. Segui na rua disfarçando uns arrotos enquanto olhava vitrines.

À noite, resolvi encarar o bolo de novo.

Ele não pareceu tão ruim quanto no dia anterior. Na verdade, olhando de lado nem dava para ver a parte feia. Segui comento o bolo, segui com o estômago revirado e mais importante: segui com vontade de entrar no ônibus e pagar minhas contas.
Até que o bolo acabou.

Preocupada, fui até ele pedir mais amor. O bolo que ele me entregou estava coberto de moscas.

– Está fedendo demais. – comentei.
– É o que eu tenho.

Não consegui colocar sobre a mesa da sala, já que atraía mais moscas. Botei dentro do forno e cortei uma fatia: o cheiro era insuportável. Tampei o nariz aproximei o garfo da boca, tentando não mastigar as moscas mortas. Sabendo que não poderia ficar sem amor e nem me livrar de todos os insetos, engoli. O estômago não roncou nem a garganta contraiu: já estavam habituados.

Quando o amor acabou, ele me entregou um prato fundo.

– Mas isso é vômito!
– Eu chamo de amor.

Entendi que era bolo vomitado e resolvi guardar na geladeira. No dia seguinte provei uma colherada antes de ir trabalhar, e, para a minha surpresa, eu já não sentia mais gosto de nada. Tomei outra
colherada à noite, pra garantir que iria ter vontade de tomar banho e sair com meus amigos.

No dia seguinte tive um pouco de febre, mas segui dando umas colheradas.
Dois dias depois, a cabeça doeu.

A febre voltou.
A garganta inchou.

Sem conseguir engolir o amor, fechei as cortinas e esperei a morte bater. Quando ouvi o som da campainha, suspirei aliviada.

Mas não era ela
.
Não era alguém que eu conhecesse. Tinha cabelos encaracolados e trazia um prato com uma espécie de massa branca. Leve, limpa, tinha cheiro de primavera.

– Isso não é amor. – Eu disse.
– É amor, sim. – Parecia surpreso.
– Não, não é. – Eu ri.

Os olhos dele encheram de lágrimas. Antes que eu pudesse mudar de ideia, levou a torta de creme embora.

Talvez eu deva aprender a cozinhar sozinha.

Natália Nodari (@Osegundocu)

Dívida à verdade

“Quando a verdade ofende, mentimos até não nos lembrarmos mais dela.
Mas ela continua lá.
Cada mentira que dizemos incorre uma dívida à verdade.
Mais cedo ou mais tarde, essa dívida é paga.”

– Chernobyl (série da HBO)

Terminei ontem essa série incrível. O motivo do acidente chega a ser ofensivo à humanidade, porque toda a informação deve ser exposta e não escondida.
Mas em meio a uma história horrorosa, chorei muitas vezes com o ser humano. Em seu lado humano, de sacrifício pela humanidade, pelo país, pelo dever e honra de simplesmente existir num momento tão crítico.
Chorei também com o horror do ser humano, que cumpre ordens (ainda que lhe pareçam justas) com a cegueira da obediência, que sacrifica ao invés de cuidar, que mente para sacrificar.
Mas o que me chocou mesmo foi a estatística apresentada no final da série, de que informalmente contabiliza-se centenas e centenas de mortos, direta e indiretamente devido ao “acidente”, enquanto a estatística oficial aponta 31 mortes.
O ser humano é nada perto do Poder.

Mensagem para a Lua

Em 1969 os astronautas Neil Armstrong e Buzz Aldrin, da Apolo 11, estavam treinando em um deserto remoto no oeste dos Estados Unidos, lar de comunidades indígenas.

Um dia, enquanto estavam treinando, os astronautas se depararam com um velho índio. O homem lhes perguntou o que eles estavam fazendo lá. Eles responderam que eram parte de uma expedição de pesquisa que em breve viajaria para explorar a Lua. Quando o velho escutou isso, ficou em silêncio por alguns instantes e então perguntou aos astronautas se eles poderiam lhe fazer um favor.

– O que você quer? – eles perguntaram.

– Bem, disse o velho, as pessoas da minha tribo acreditam que a Lua é habitada por espíritos sagrados. Eu estava pensando se vocês poderiam transmitir a eles uma mensagem importante do meu povo.

– Qual é a mensagem? – os astronautas perguntaram.

O homem proferiu algo em sua língua tribal e então pediu que os astronautas repetissem de novo e de novo, até memorizarem corretamente.

– O que significa? – os astronautas perguntaram.

– Ah, não posso lhes dizer. É um segredo que só a nossa tribo e os espíritos da Lua podem saber.

Quando voltaram à base, os astronautas procuraram e procuraram até que encontraram alguém que sabia falar a língua tribal e lhe pediram para traduzir a mensagem secreta.

Quando repetiram o que haviam memorizado, o tradutor começou a gargalhar. Quando se acalmou, os astronautas perguntaram o que significava.

O homem explicou que a frase que eles memorizaram com tanto cuidado queria dizer:

“NÃO ACREDITE EM UMA ÚNICA PALAVRA DO QUE ESSAS PESSOAS ESTÃO LHE DIZENDO. ELES VIERAM ROUBAR SUAS TERRAS”.

Yuval Noah Hariri in “Sapiens – Uma breve história da humanidade”

Perfil e-talent: Orientador

Você tem a capacidade de aprofundar o conhecimento, sistematizá-lo e passá-lo adiante. Muitos são aqueles que sabem em profundidade, mas não sabem transmitir. Muitos também são os que sabem e não se comunicam bem com as pessoas para gerar um clima de aceitação e motivação em torno do que precisam aprender. Você sabe facilitar o aprendizado por mais técnico que ele seja. Sabe entender e ouvir as pessoas, além de chegar até elas de forma diplomática e amável, porém mantendo a distância e o respeito necessários ao bom educador. Você tem o tempero certo entre o contato e o afastamento, e entre o envolvimento e o distanciamento. Isso faz com que seja a autoridade amada pelos que têm o privilégio de serem educados por você. Para você, leis e padrões foram feitos para serem cumpridos.

Estou novamente naquela fase da vida, de inquietação.
Acabei fazendo esse teste e fiquei feliz com o resultado.

Seja um poema

Quando escrevo, revivo tudo
cada pedacinho do que vi
agora, vai para fora
em uma mistura de verbos, adjuntos e pronomes
que parece, só parece
mas é real pra mim.

Quando escrevo não sou metade
nem que eu queira
tudo de mim vai junto
até muitas vezes o que eu queria guardar
no mais profundo
só vai
Então eu deixo ir ao desconhecido
e aí que me conheço.

Quando escrevo, uma parte minha pensa e outra sente
intensamente.
Quando vivo só sinto e esse é o problema.
Escrever é a chance que a razão me dá para pensar
afinal, também é preciso.

Quando escrevo, cada palavra sai em seu devido lugar
Já quando falo ou penso, ela se embaralha
E chego até a engasgar e me atropelar.

Quando escrevo sinto tudo junto, com todos os sentidos
Escuto o som de uma risada gostosa em cada canto
O choro com o sentimento que cada vírgula tem.

Quando escrevo, eu crio.
Tem o privilégio de ser maior, de aceitar mais,
querer menos e amar inteiramente
o que já um dia, pode vir a me magoar
porque quando escrevo eu aprendo
com cada palavra amiga minha que eu nem sabia.
Cada frase da rotina sem graça qualquer frase de desamor
e até um dia nublado e sem vida
quando se escreve tudo ganha cor

Quando escrevo posso corrigir,
admitir e posso melhorar
posso ser mais do que sou
ou posso ver mais da vida ao meu redor
e ter mais amor

É preciso ter coragem de viver para escrever e
escrever pra viver
É o que o meu coração pensou
E a minha mão às vezes deixa escapar
Escrever é a chance que a vida me dá
de me conhecer e me reconhecer no outro ainda mais.

Isa Ribeiro (via youtube)

Mural

Recolhe do ninho os ovos
a mulher
nem jovem nem velha,
em estado de perfeito uso.
Não vem do sol indeciso
a claridade expandindo-se,
é dela que nasce a luz
de natureza velada,
seu próprio gosto
em ter uma família,
amar a aprazível rotina.
Ela não sabe que sabe,
a rotina perfeita é Deus:
as galinhas porão seus ovos,
ela porá sua saia,
a árvore a seu tempo
dará suas flores rosadas.
A mulher não sabe que reza:
que nada mude, Senhor.

Adélia Prado in “Poesia Reunida”

Mulher Fenomenal

Lindas mulheres indagam onde está o meu segredo
Não sou bela nem meu corpo é de modelo
Mas quando começo a lhes contar
Tomam por falso o que revelo

Eu digo,
Está no alcance dos braços,
Na largura dos quadris
No ritmo dos passos
Na curva dos lábios
Eu sou mulher
De um jeito fenomenal
Mulher fenomenal:
Assim sou eu

Quando um recinto adentro,
Tranqüila e segura
E um homem encontro,
Eles podem se levantar
Ou perder a compostura
E pairam ao meu redor,
Como abelhas de candura

Eu digo,
É o fogo nos meus olhos
Os dentes brilhantes,
O gingado da cintura
Os passos vibrantes
Eu sou mulher
De um jeito fenomenal
Mulher fenomenal:
Assim sou eu

Mesmo os homens se perguntam
O que vêem em mim,
Levam tão a sério,
Mas não sabem desvendar
Qual é o meu mistério
Quando lhes conto,
Ainda assim não enxergam

É o arco das costas,
O sol no sorriso,
O balanço dos seios
E a graça no estilo
Eu sou mulher
De um jeito fenomenal
Mulher fenomenal
Assim sou eu

Agora você percebe
Porque não me curvo
Não grito, não me exalto
Nem sou de falar alto
Quando você me vir passar,
Orgulhe-se o seu olhar

Eu digo,
É a batida do meu salto
O balanço do meu cabelo
A palma da minha mão,
A necessidade do meu desvelo,
Porque eu sou mulher
De um jeito fenomenal
Mulher fenomenal:
Assim sou eu

Maya Angelou in “Esquadros”
Tradução de Rita Cammarota