Ainda me viro

ainda me viro
e me vejo
pronta a te chamar
a te contar
que aprendi hoje
coisas que você soube

ainda te vejo
em cada bicho
em cada pensamento
me surpreendo olhando
com teus olhos de pesquisa
e o que vejo
vira beleza

ainda te sinto
em tudo que permanece
como se tua pressa
de vida que se extingue
ficasse um pouco em tudo
ainda

– Alice Ruiz in “Pelos Pêlos, poemas”

Ah mar!

Amar!!
Ah mar
E pedras a rolar

Assim
Há sim
Um encanto a encontrar

Amar
Assim
Não dá pra controlar
É como se entregar
Sem saber o lugar.
E quando chegar
Ver que é um sonho
De não querer acordar

Ah mar!!

Oscar de Jesus Klemz
Tem mais textos do autor no Recanto das Letras

Minha voz não chega

minha voz
não chega aos teus ouvidos

meu silêncio
não toca teus sentidos

sinto muito
mas isso é tudo que sinto

– Alice Ruiz in “Pelos Pêlos, poemas”

Basta ano novo

Foi um sonho tão forte que acreditei nele por minutos como uma realidade. Sonhei que aquele dia era Ano Novo. E quando abri os olhos cheguei a dizer: Feliz Ano Novo!
Não entendo de sonhos. Mas este me parece um profundo desejo de mudança de vida. Não precisa ser feliz sequer. Basta ano novo. E é tão difícil mudar. Às vezes escorre sangue.

Clarice Lispector in “A Descoberta do Mundo”

Traduzir-se

Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.

Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir uma parte
na outra parte
— que é uma questão
de vida ou morte —
será arte?

Ferreira Gullar in “Na Vertigem do Dia”

Dicionário das Tristezas Obscuras

Descobri o Dicionário das Tristezas Obscuras pelo site Noosfera, que acredito eu, tenha feito a tradução dos verbetes abaixo listados. O artista John Koenig inventou um dicionário de palavras inventadas para exprimir emoções ainda não descritas em dicionários, talvez até porque sejam difíceis de serem explicadas.

Separei algumas que achei interessante.

Adronitis
Frustrar-se com a quantidade de tempo necessário para se conhecer bem alguém.

Ambedo
Um tipo de transe melancólico no qual você se torna completamente absorto por pequenos detalhes sensoriais – pingos de chuva escorrendo pela janela, árvores altas se dobrando lentamente com o vento, espirais de creme se formando no café – o que, por fim, leva a uma avassaladora constatação da fragilidade da vida.

Anchorage
O desejo de segurar o tempo enquanto ele passa, como tentar se segurar em uma pedra no meio de um rio com muita correnteza.

Kairosclerosis
O momento em que você percebe que está feliz – e tenta conscientemente aproveitar essa sensação – o que obriga seu intelecto a identificar e colocar a sensação em um contexto, onde a felicidade lentamente se dissolve até se tornar pouco mais do que um retrogosto.

Lethobenthos
O hábito de esquecer o quão importante uma pessoa é para você, até o momento em que você a encontra pessoalmente.

Liberosis
O desejo de se importar menos com as coisas.

Scabulous
Sentir orgulho de uma cicatriz. Como um autógrafo dado a você pelo mundo.

The Bends
A frustração ao perceber que você não está aproveitando uma experiência tanto quanto deveria.

Trumspringa
A tentação de sair da sua meta de carreira e se tornar pastor de ovelhas nas montanhas.

Zenosyne
A sensação de que o tempo está passando cada vez mais rápido.

A máscara

Levantava o corpo caído baleado na perna quando um facão atravessou-lhe o peito. No instante em que perdia a consciência, o rosto do outro se gravou na pupila do soldado como que marcado a fogo. O sangue vertido no peito se esparramou sobre a terra. Era uma encosta de montanha parecida com a que havia perto da vila natal, embora estivesse longe de sua terra.

O sangue permeou a terra e se tornou terra. No começo era de uma cor um pouco mais escura do que a da terra ao seu redor, mas, aos poucos, foi se tornando uma cor só. A terra era a própria vida para este soldado que no passado arara a terra. A raiz de uma eulália, quase que furtivamente, foi sugando pouco a pouco a seiva do soldado. O soldado se tornou eulália.

Confusas botas militares pisotearam a eulália de cima a baixo da montanha.

No inverno, botas ainda mais pesadas pisaram-na por cima da neve que a cobria. Pisaram-na várias vezes e muitas vezes mais. No entanto, a eulália não morreu. Depois que as botas se foram, a eulália foi sacudida pelo vento de primavera, aquecida ao sol de verão, lavada pela chuva e orvalho, coberta pela neve, e novamente agitada ao vento de primavera. Numa primavera tardia, um camponês ceifou a eulália e a levou para um estábulo.

Tornou-se boi. O camponês dono do estábulo cuidava do boi como o membro mais precioso de sua família, assim como fizera o soldado quando camponês. O soldado trabalhou arduamente junto ao seu novo dono camponês.

Trabalhou até criar calos no couro. Mas a vida dificilmente melhorava. Entrava ano e saía ano, mas era tudo igual. Numa noite, depois de uma enchente que devastou a plantação, o camponês acariciou o pescoço do soldado e chorou em silêncio. Depois, o soldado passou pela feira, trem de carga, abatedouro e, finalmente, foi pendurado no açougue de uma cidade. Foi feito em pedaços para ser vendido. Foi quando encontrou alguém que parecia conhecer. Era o homem que lhe atravessara o peito com um facão na encosta da montanha. Arrastava-se pelas ruas mendigando. No resto de comida que havia mendigado de um restaurante, comeu a carne do soldado. O soldado entrou no homem.

O homem recuperou as forças repentinamente, jogou no chão a lata que segurava e saiu andando. No macacão de trabalhador que vestia, todo gasto, pendia mole uma das mangas sem braço. Foi andando até uma fundição e parou em frente. Trabalhara lá como torneiro antes de perder o braço no campo de batalha. Sem titubear, entrou decidido na fábrica. Estava lá o mesmo supervisor de antigamente.

– Como vai o senhor?

O desagrado era claro na expressão do supervisor. Tirou o cigarro da boca e o esmagou com a ponta do sapato.

– Senhor supervisor! Não precisa ficar aborrecido. Hoje não vim para aporrinhar, sabe? Vim trabalhar, como eu fazia antes.

O supervisor lançou um olhar apreensivo para a manga que pendia mole sem braço.

– O que está olhando? Olhando direto nos olhos do supervisor, o homem continuou:

– Tá certo que tenho uma perna inutilizada porque fui baleado, mas isso não quer dizer que eu não possa fazer o trabalho de torno, não é?

Enquanto falava com todo o corpo, a manga sem braço balançava mole, mole.

Huang Sun-Won(1915-2000), in “Contos Contemporâneos Coreanos”.
Tem sete romances, mais de uma centena de contos e poemas publicados.
Após a divisão das duas Coreias, teve que fugir para a do Sul por ser de família abastada.

Versos de Natal

Espelho, amigo verdadeiro,
Tu refletes as minhas rugas,
Os meus cabelos brancos,
Os meus olhos míopes e cansados.
Espelho, amigo verdadeiro,
Mestre do realismo exato e minucioso,
Obrigado, obrigado!

Mas se fosses mágico,
Penetrarias até o fundo desse homem triste,
Descobririas o menino que sustenta esse homem,
O menino que não quer morrer,
Que não morrerá senão comigo,
O menino que todos os anos na véspera do Natal
Pensa ainda em pôr os seus chinelinhos atrás da porta.

Manuel Bandeira In “Lira dos cinquenta anos”, 1940

Reinicio da nossa amizade

Gostaria que você me falasse da sua vida aí, dos seus sonhos, da sua – imagino – grande solidão. (…) e espero que esta carta, que me está saindo longa demais, sirva como reinício da nossa amizade, tão profunda e tão antiga.

– Caio F. Abreu

Trecho da carta extraída do livro “O que importa em Oracy”,
organizado por Fátima Friedriczewski,

A física do amor

Um objeto não precisa ser grande para ter grande massa.
Aquela menina, tão pequena quanto uma violeta
Aquela menina, flutuando no céu
como pétalas de flor
me atrai para ela com força maior
que a exercida pela terra.
Em um único momento
Eu caí e rolei em sua direção,
sem rima nem razão
como a maçã de Newton.
Com uma pancada.
Com uma pancada dura.

Meu coração balançou entre o céu e
a terra, num movimento pendular.
Tal foi o momento em que
me apaixonei pela primeira vez.

Kim In-Yook,
poema lido no kdrama
Goblin: O Grandioso Deus Solitário