Pessoas que valem a pena

“Foi então que eu descobri. Ele está exatamente no mesmo lugar que eu agora, pensando as mesmas coisas, com preguiça de ir nos mesmos lugares furados e ver gente boba, com a mesma dúvida entre arriscar mais uma vez e voltar pra casa vazio ou continuar embaixo do edredon lendo mais algumas páginas do seu mundo perfeito.
A verdade é que as pessoas de verdade estão em casa.
Não é triste pensar que quanto mais interessante uma pessoa é, menor a chance de você vê-la andando por aí?”

Maicke Silva in “Cartas Ao Amor Morto”


Ps: Também vi esse texto atribuído à Tati Bernardi. Desconfio que ela seja a verdadeira autora, mas não consegui rastrear a origem. Quem tiver a informação, por favor, avise.

Cantiga para não morrer

Quando você for se embora,
moça branca como a neve,
me leve.

Se acaso você não possa
me carregar pela mão,
menina branca de neve,
me leve no coração.

Se no coração não possa
por acaso me levar,
moça de sonho e de neve,
me leve no seu lembrar.

E se aí também não possa
por tanta coisa que leve
já viva em seu pensamento,
menina branca de neve,
me leve no esquecimento.

Ferreira Gullar in “Dentro da Noite Veloz”

Ferreira Gullar morre aos 86 no rio.
Notícia completa aqui.

Das declarações de amor em casamento – II

Eu sempre imaginei encontrar uma mulher que me trouxesse paz, que me trouxesse conforto e que me aceitasse exatamente como eu sou. Aí eu conheci você, e você não era nada disso. Ao invés de paz, você trouxe um monte de novidade pra minha vida. Ao invés de conforto, você trouxe um novo modo de pensar, novos lugares para conhecer. E ao invés de me aceitar como eu sou, você fez eu descobrir que podia ser muito melhor.

Nós somos muito diferentes, mas somos diferentes de um jeito que eu acho perfeito, porque a gente se complementa. Você é tudo o que estava faltando na minha vida. E eu espero, sinceramente, poder ser o mesmo pra você.

O normal seria eu dizer agora: nunca mude, e continue a ser essa mulher que eu amo. Mas, na verdade, eu vou dizer: continue mudando, porque assim você continua mudando a minha vida. Eu te amo. Cada vez mais, e cada vez de um jeito novo.

– Desconheço o autor

Não é saudade

No meio da tensão e da corrida que é sempre esta cidade, foi qualquer coisa como um sopro de ar fresco, um gole d’água, qualquer coisa assim. Não é saudade, porque para mim a vida é dinâmica e nunca lamento o que se perdeu – mas é sem dúvida uma sensação muito clara de que a vida escorre talvez rápida demais e, a cada momento, tudo se perde.

– Caio F. Abreu

Trecho da carta extraída do livro “O que importa em Oracy”,
organizado por Fátima Friedriczewski,

Você vive ou acumula?

Um jovem advogado foi indicado para inventariar os pertences de um senhor recém falecido. Segundo o relatório do seguro social, o idoso não tinha herdeiros ou parentes vivos. Suas posses eram muito simples. O apartamento alugado, um carro velho, móveis baratos e roupas puídas. “Como alguém passa toda a vida e termina só com isso?”, pensou o advogado. Anotou todos os dados e ia deixando a residência quando notou um porta-retratos sobre um criado mudo.

Na foto estava o velho morto. Ainda era jovem, sorridente, ao fundo um mar muito verde e uma praia repleta de coqueiros. À caneta escrito bem de leve no canto superior da imagem lia-se “sul da Tailândia”. Surpreso, o advogado abriu a gaveta do criado e encontrou um álbum repleto de fotografias. Lá estava o senhor, em diversos momentos da vida, em fotos em todo canto do mundo.

Em um tango na Argentina, na frente do Muro de Berlim, em um tuk tuk no Vietnã, sobre um camelo com as pirâmides ao fundo, tomando vinho em frente ao Coliseu, entre muitas outras. Na última página do álbum um mapa, quase todos os países do planeta marcados com um asterisco vermelho, indicando por onde o velho tinha passado. Escrito à mão no meio do Oceano Pacífico uma pequena poesia:

“Não construí nada que me possam roubar.
Não há nada que eu possa perder.
Nada que eu possa trocar,
Nada que se possa vender.

Eu que decidi viajar,
Eu que escolhi conhecer,
Nada tenho a deixar
Porque aprendi a viver…”

Desconheço o autor.

Um porcento de alguma coisa

Digamos que exista um homem com 99 características boas. Mas ele tem uma ruim.
Algum dia, você vai detestá-lo por causa disso.
Mas tem esse outro homem com 99 características ruins e uma boa.
Se essa característica boa te conquistar, você vai se apaixonar, porque é o charme dele.

1% Something
(série)

Cabelos Curtos

“Gosto de mulheres que ousam cortar os cabelos e usá-los curtíssimos.
Não é por causa da nuca à mostra ou do colo insinuante. Quer dizer, isso conta sim, mas apenas as mulheres realmente belas podem cortar seus cabelos.
Aquelas que insistem em nunca diminuir os longos fios na verdade utilizam as mechas para emoldurar uma beleza falsa em torno do rosto, criando nuances para uma delicadeza que talvez nunca tenha existido, camuflando orelhas de abano e expressões grotescas.
Longos cabelos podem deleitar certos homens, denotar uma feminilidade óbvia, criar entrelaçamentos entre dedos e aroma de xampu, mas apenas as damas que se atrevem a eliminar todo aquele nylon podem ser denominadas honestamente formosas, genuinamente dignas de exibir seus rostos nus e sua feição pura.
Adoro mulheres que, em algum momento da vida ousam tosar os cabelos. Estas sim são belas de verdade.”

– Desconheço o autor

Nunca fui livre

Da série: frases que eu amo e estou transformando em “gaiolinhas”

clarice-lispector-02

Poetriz

Eu nunca fui livre na minha vida inteira.
Por que dentro eu sempre me persegui.
Eu me tornei intolerável para mim mesma.

– Clarice Lispector in “Um Sopro de Vida”

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Da mais alta janela da minha casa

Da mais alta janela da minha casa
Com um lenço branco digo adeus
Aos meus versos que partem para a Humanidade.

E não estou alegre nem triste.
Esse é o destino dos versos.
Escrevi-os e devo mostrá-los a todos
Porque não posso fazer o contrário
Como a flor não pode esconder a cor,
Nem o rio esconder que corre,
Nem a árvore esconder que dá fruto.

Ei-los que vão já longe como que na diligência
E eu sem querer sinto pena
Como uma dor no corpo.

Quem sabe quem os terá?
Quem sabe a que mãos irão?

Flor, colheu-me o meu destino para os olhos.
Árvore, arrancaram-me os frutos para as bocas.
Rio, o destino da minha água era não ficar em mim.
Submeto-me e sinto-me quase alegre,
Quase alegre como quem se cansa de estar triste.

Ide, ide de mim!
Passa a árvore e fica dispersa pela Natureza.
Murcha a flor e o seu pó dura sempre.
Corre o rio e entra no mar e a sua água é sempre a que foi sua.

Passo e fico, como o Universo.

Alberto Caeiro in “O Guardador de Rebanhos”
(heterônimo de Fernando Pessoa)

Talvez o tempo traga

“…eu queria tanto conhecer alguém. Talvez o tempo traga uma pessoa, uma pessoa especial. Talvez eu resolva isso aos poucos, sem sentir, depois de resolver a mim mesmo. Talvez eu esteja demasiado perto da adolescência ainda – dentro dela, até – e seja difícil, por enquanto, me libertar de todas as idiotices que ouvi.”

– Caio F. Abreu in Limite Branco