O bicho

Vi ontem um bicho
Na imundice do pátio
Catando comida entre os detritos.

Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.

O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.

O bicho, meu Deus, era um homem

Manuel Bandeira in”Poesia completa e prosa.”

 

Primeiro vem o tempo de achar

Primeiro vem o tempo de achar, depois o de seguir.
Depois desses, outros tempos,
até que venha um tempo só,
e é o logo e solitário tempo do perdido.

Mas para isto é que a memória vale:
aí, nessa distância
esta paisagem não parecerá mais uma visão desconhecida,
terá apenas um ar familiar e antigo,
que nos lembra aquilo que existiu,
e foi nosso sem que soubéssemos que era nosso.
Será então o tempo de entender.

Lúcio Cardoso in “Poemas Inéditos”

De um jeito torto, mas bonito

Tô feliz com os 30: acho que fiz tudo do jeito melhor, meio torto, talvez, mas tenho tentado da maneira mais bonita que sei.

Caio Fernando Abreu in “Cartas”


Por aqui, mais um inverno pra mim. 🙂

Palhaço

“A consciência profissional do palhaço impede-lhe achar graça no que faz.”

– Carlos Drummond de Andrade in “O avesso das coisas”

Sal da terra

“Vós, diz Cristo, Senhor nosso, falando com os pregadores, sois sal da terra porque quer que façam na terra o que faz o sal. O efeito do sal é impedir a corrupção; mas quando a terra se vê tão corrupta como está a nossa, havendo tantos nela que têm ofício de sal, qual será, ou qual pode ser a causa dessa corrupção? Ou é porque o sal não salga, ou porque a terra não se deixa salgar.

– Trecho do sermão de Santo Antônio aos Peixes,
proferido pelo padre Antônio Vieira em São Luis do Maranhão,
em 13 de junho de 1654 , dia de Santo Antônio.

Assim eu vejo a vida

A vida tem duas faces:
Positiva e negativa
O passado foi duro
mas deixou o seu legado
Saber viver é a grande sabedoria
Que eu possa dignificar
Minha condição de mulher,
Aceitar suas limitações
E me fazer pedra de segurança
dos valores que vão desmoronando.
Nasci em tempos rudes
Aceitei contradições
lutas e pedras
como lições de vida
e delas me sirvo
Aprendi a viver.

Cora Coralina in “Melhores Poemas”

Minha Cidade

Goiás, minha cidade…
Eu sou aquela amorosa
de tuas ruas estreitas,
curtas,
indecisas,
entrando,
saindo
uma das outras.
Eu sou aquela menina feia da ponte da Lapa.
Eu sou Aninha.

Eu sou aquela mulher
que ficou velha,
esquecida,
nos teus larguinhos e nos teus becos tristes,
contando estórias,
fazendo adivinhação.
Cantando teu passado.
Cantando teu futuro.
Eu vivo nas tuas igrejas
e sobrados
e telhados
e paredes.

Eu sou aquele teu velho muro
verde de avencas
onde se debruça
um antigo jasmineiro,
cheiroso
na ruinha pobre e suja.
Eu sou estas casas
encostadas
cochichando umas com as outras.
Eu sou a ramada
dessas árvores,
sem nome e sem valia,
sem flores e sem frutos,
de que gostam
a gente cansada e os pássaros vadios.

Eu sou o caule
dessas trepadeiras sem classe,
nascidas na frincha das pedras:
Bravias.
Renitentes.
Indomáveis.
Cortadas.
Maltratadas.
Pisadas.
E renascendo.

Eu sou a dureza desses morros,
revestidos,
enflorados,
lascados a machado,
lanhados, lacerados.
Queimados pelo fogo.
Pastados.
Calcinados
e renascidos.
Minha vida,
meus sentidos,
minha estética,
todas as virações
de minha sensibilidade de mulher,
têm, aqui, suas raízes.

Eu sou a menina feia
da ponte da Lapa.
Eu sou Aninha.

Cora Coralina in “Poema dos Becos de Goiás e Estórias Mais”

Segue o teu destino

Segue o teu destino,
Rega as tuas plantas,
Ama as tuas rosas.
O resto é a sombra
De árvores alheias.

A realidade
Sempre é mais ou menos
Do que nós queremos.
Só nós somos sempre
Iguais a nós-próprios.

Suave é viver só.
Grande e nobre é sempre
Viver simplesmente.
Deixa a dor nas aras
Como ex-voto aos deuses.

Vê de longe a vida.
Nunca a interrogues.
Ela nada pode
Dizer-te. A resposta
Está além dos deuses.

Mas serenamente
Imita o Olimpo
No teu coração.
Os deuses são deuses
Porque não se pensam.

Fernando Pessoa in “Poemas Completos de Ricardo Reis”

Cartas sem selo – I

Caro autor,

Soube do fim do seu relacionamento. Todo fim nos abre um leque de novas oportunidades. As vezes, é um tapa na cara que a vida nos dá, pra gente sair da zona de conforto e ir atrás de algo que nos lembre que nosso coração palpita de verdade.
Mas guarde esse amor em seu coração com carinho. Todo amor é válido e nos ensina algo sobre amar, a gente e ao outro.
Vejo que a superação veio na forma de estudo. É bom, fico contente. Sonhos existem pra isso mesmo, para serem realizados.
Espero que realize todos. Das duas graduações, de um grande amor.
Eu fiz duas graduações. Não ao mesmo tempo, deus me livre! Consome a gente, desgasta. Deixa a gente preguiçoso de viver e ao mesmo tempo com uma ânsia muito grande de realizar coisas grandes.
Estou agora nesse “hiatus”. Da vida, do sonho, das realizações. Dá um pouco de esperança ver que outras pessoas ainda vivem, sonham, realizam.

Com carinho,

P.

Eu decido

Certo dia um escritor acompanhou seu amigo até a banca de jornal onde ele costumava comprar diariamente o seu exemplar.
Ao se aproximarem do balcão seu amigo cumprimentou amavelmente o jornaleiro, e em resposta recebeu um tratamento rude e grosseiro.
O amigo então pegou o jornal, que foi jogado em sua direção, pagou, sorriu, agradeceu e desejou um ótimo dia ao jornaleiro.
Quando ambos caminhavam de volta, o escritor intrigado perguntou ao seu amigo:
– Você compra jornal aqui todos os dias?
– Sim – respondeu o amigo.
– E ele sempre o trata assim, com tanta grosseria?
– Sim – respondeu o rapaz – Infelizmente é sempre assim…
– E você é sempre tão educado e amigável com ele?
– Sim, sempre.
– E por que você é tão educado com ele, se ele é tão grosso com você?
– Bem, é porque eu não quero que ele decida como eu devo ser.

Desconheço o Autor


Eu acho esse texto super parecido com o publicado ontem, do Caminhão de Lixo. Não acham? Quando encontrei o de ontem, tive que buscar esse também e publicar aqui no blog.