Olhar

Eu gostaria de lhe agradecer pelas inúmeras vezes que você me enxergou melhor do que eu sou.

Pela sua capacidade de me olhar devagar, já que nessa vida muita gente já me olhou depressa demais.

Padre Fábio de Melo (atribuído)

Resenha: Maudie: sua vida e sua arte

O filme, disponível na netflix, sairá do catálogo essa semana (dia 14), por isso resolvi assistir.

O filme narra a história de Maud Lewis, uma artista plástica canadense, que morreu aos 67 anos. Originária de Nova Escócia, vivia na pobreza ao lado do marido, um pescador local. Sua condição de saúde foi se deteriorando ao passar do tempo, reduzindo principalmente a mobilidade de suas mãos, principal instrumento para os seus trabalhos.

A plenitude da vida já é enquadrada

– Maudie: Sua vida e sua arte (filme)

Conforme o filme, a família de Maud (tia e irmão) não entendiam sua dificuldade motora e viam como impedimento de viver a vida. Entretanto, Maud era plenamente capaz e foi assim que conseguiu primeiramente o emprego de doméstica até conquistar o coração do então marido, Everett.

Na simplicidade que vivam, Maud passou a pintar as paredes de casa com desenhos simples e alegres. Foi assim que foi descoberta por uma vizinha, Sandra, que passou a comprar e divulgar sua arte primeiramente através de cartões postais e depois em pequenos quadros de madeira.

Apesar da fama, Maud manteve a vida simples, pintando em sua pequena casa de madeira até o fim da vida.

E para uma história tão singela, o filme não poderia ser extraordinário. Mas não se enganem, chorei em muitas cenas que eram ora doces, ora amargas.

A atriz que interpreta Maud, Sally Hawkins, é também conhecida pela produção “A forma da Água”, e sua atuação é notável, definhando tão lentamente durante todo o filme.

A grande lição de Maud, além de superar os limites, principalmente de sua mobilidade, é que não é preciso muito para ser feliz.

A vida já é plena! Basta a gente olhar para fora…

Carta ao Amor Ausente – IV

P.R.

Sinto demorar tanto tempo para escrever essa carta. Teu nome gritou em meu coração ontem, numa conversa simples, de alguém novo – um amigo – que deseja enviar um cartão de natal. Lembrei de ti, da gente. Chegamos a trocar cartões de natal?

Sabes, guardo todas tuas cartas numa caixa de fita de cetim. Tenho muito apreço pela nossa história que começou há quanto tempo mesmo? Vinte anos?

Ah, como fui feliz! Não sabes o quanto eu fui feliz cada vez que o carteiro chamava e esperava que eu fosse receber aquele envelope colorido, com meu nome gigantemente pintado do lado de fora. Acho que o carteiro também queria saber o conteúdo de nossas conversas.

E nossas conversas? Deviam ser tão tolas quanto uma adolescente pode ser. Lembra que a desculpa era trocar poesias? Trocamos muito mais! Enviávamos pedaços de nossa alma a cada correspondência. Lembro de uma missiva em que me oferecias sorvete de abacaxi. Devo ter respondido que recusava, sempre fui sincera. Não gosto de coisas geladas. Além de atacar minha bronquite, gosto das coisas como são: frescas ou mornas.

Sabe, ontem a noite eu chorei ao lembrar dessa felicidade mansa que deixamos para trás. O tempo é tão avassalador. Fui eu ou foi você que deixou de escrever?

Confesso, apesar da saudade, não tenho coragem de reler as cartas.

Pergunto-me como viveu nesse tempo de ausência. Foi feliz? Achou outra correspondente? Achou outra obsessão? (risos) Lembrei de outra carta, que dizias que tua mãe te alertava sobre essa obsessão. Mas você deve (devia) ser assim: gelado, quente, obsessivo. O poeta que vive intensamente!

Eu sempre fui tímida, polida, sem graça.

Um dia, farei uma fogueira das cartas. Em tua homenagem dançarei ao redor dela, cantarei cantos de amor e cairei no chão em gargalhada. Quero que nossa final despedida seja assim: ardente.

Por ora, peço a Deus que estejas bem.

Só ontem descobri o quanto precisei muito de uma carta amiga, uma poesia qualquer, durante esse ano de pandemia.

Espero que você esteja bem. E que nada tenha lhe faltado durante esses anos que não nos falamos.

Sinto sua falta.

P.

Por ser frágil

Por ser frágil

e talvez ter sido partido antes,

o coração dele

veio me procurar.

– Because is my fist life (série)

Jorge Ruiz Zafón (1964-2020)

Enquanto nos recordam, continuamos vivos

O escritor espanhol #carlosruizzafon, faleceu aos 55 anos, conforme anúncio da editora Planeta, que publicou sua obra.

Nascido em Barcelona em 1964, Ruiz Zafón estudou em um colégio religioso e se formou em Ciências da Informação.

Apesar de sua paixão pela #literatura desde a infância, #carlosruizzafón publicou o primeiro livro somente aos 30 anos e depois de abandonar a carreira que tinha na publicidade.

Palácio para a Juventude Eterna

Eu desejo que Sua Majestade me sacrifique.
Para que possa salvar a nação.
Oh, Sua Majestade…

Quando alguém deixa o Palácio para a Juventude Eterna, todos podem ver a vida dele ou dela lá.
O que eu vejo é o desamparo e compromissos em cada passo.
Minha vida tem sido distendida pelo destino, vivendo uma vida em que não aprecio.
Os anos em que vivi, com todo o descontentamento que sinto no meu coração.

Shang Xirui cantou tudo o que senti.

Meu pai morreu.
Eu desisti do que eu realmente queria fazer.
E fui para casa para aprender sobre como fazer negócios, mas é mais fácil dizer do que fazer.
Eu era muito novo.

Eu sei que na vida, você não conseguirá sempre agir como deseja.
É sentir solidão.
É o que você quer mas não consegue tê-lo.

♪ Sua Majestade ♪
♪ Seu companheiro, Yang Yuhuan ♪
♪ Irá se curvar para agradecer a sua graça. ♪
♪ Por agora, ♪
♪ Nós não podemos nos encontrar novamente. ♪

Mas Yang Guifei me disse, que ela não quis.
Ela não quis se submeter, ela preferiria morrer.

Você não precisa morrer.
Contanto que soubesse como deixar as coisas irem.

Deixar o que ir?

As pessoas, certas questões, aprender como aceitar seu destino.

Então não faz sentido estar vivo.

Espere!

Não posso esperar mais.
Se eu for mais lento, meus arrependimentos irão me alcançar.
Arrependimentos?

A Mãe deixou o palco da ópera.
Ela andou, andou e se perdeu nela mesma.
Eu preciso voltar para me encontrar.

Mãe, eu finalmente entendo.
O que você sonhava e desejava, o que levou a senhora a ir embora.

O Yang Guifei que cantou, a ópera que amava.
Então era assim como a senhora se sentia.

As voltas e reviravoltas na ópera, Shang Xiui carrega a alma de Yang Guifei.
Cantando e dançando, lentamente andando sozinho.
Todo o tempo flui em suas mangas, um movimento, uma visão.

Aqueles que atuaram são idiotas.
Aqueles que assistiram são bêbados.
Aqueles que estão no palco não sabem se estão numa peça.
Aqueles que estão fora do palco não sabem se estão num sonho.

Um sonho, uma vida.
Uma vida, um sonho.

Os diálogos acima são a legenda do episódio 6 de “Winter Begônia”, uma série chinesa. Na cena, um dos personagens vai à ópera. Ele é amigo do cantor de ópera, mas não entende muito de óperas. O amigo adverte que ele irá gostar do que vai ver, meio que se gabando por ser um ator excepcional. Então, a cena segue conforme acima recortei.
Lendo não é a mesma coisa que vendo, e ainda com a trilha sonora escolhida.
Meus olhos marejaram, assim como o do personagem, quando ele se conectou com a história da ópera, com a personagem, quando ele viu sua vida, seus anseios e arrependimentos transportados naquela cena.

Essa conexão que a gente sente em poucas obras, de que é da gente que estão falando, que podia ser a gente mesmo a escrever aquelas linhas.

Só porque você viveu ontem

Mesmo sendo o mesmo mar que via antes, hoje é novo par a mim.
Mesmo as coisas que conheço, que já fiz num dado momento, com com uma nova pessoa, é a primeira vez.
Como nós, nosso casamento.
Como o beijo no ônibus.
O que aconteceu depois daquele momento, não é culpa de ninguém.
As coisas aconteceram assim.
Do mesmo jeito que algumas ondas voltam e outras quebram.
Acontece.
Por isso, você também, não devia se preocupar tanto.
Só porque você viveu ontem, não significa que saiba tudo sobre hoje.

Agora sei porque as pessoas olham o mar quando estão frustradas
Aqui você se depara com os seus sentimentos.

– Because is my fist life (série)

As pétalas caem mas a flor perdura

As pétalas caem, mas a flor perdura
O perfume permaneceu no mundo
e permeou nossa memória profundamente.

– Uma segunda chance (série netflix)

Noiva ou vestir branco?

Anne – “Eu sempre quis ser uma noiva, mas nunca uma esposa.”
Senhora Barry (tia) – “Eu posso lhe dar dois conselhos. Primeiro: poderá casar a qualquer momento da sua vida, se assim desejar. Segundo: tendo uma carreira, poderá comprar um vestido branco, fazer do seu gosto e usar quando bem entender!”

— Anne With an E
(série @Netflix)

Adeus, Sofia!

Soube hoje do falecimento de um querido professor, de Filosofia e Política.
Eu, que vinha de exatas, não podia imaginar o quanto são transformadoras essas matérias, juntamente com Sociologia. São elas que nos preparam para entender o ser humano, e em consequência, aplicar o direito.
As aulas desse professor eram muito lúdicas. As vezes ele sentava no parapeito da janela ou sentava-se na mesa como quem senta no chão, com as pernas cruzadas. E de um salto, ele descia ao chão. Era um susto e uma gargalhada!
Tinha o péssimo hábito de fumar e de lembrar da ditadura militar, quando ele estudava na USP. Então já sabem né…
Também tinha um jeito meio maluquinho de encontrar a gente no corredor e conversar como se soubesse quem a gente era. As vezes eu acho que ele sabia, as vezes tenho certeza que não. Era seu jeito gentil de não dispensar uma conversa.
Suas aulas foram transformadoras para mim.
Toda semana eu entrava na aula uma pessoa, e saía outra totalmente diferente. Porque também suas aulas já não eram a mesma da semana anterior.
Saímos da caverna, desmontamos e remontamos uma cadeira.
Descobri que os filósofos ainda existem, que não é “coisa de antigamente”.
Li o livro “O mundo de Sofia” por causa dele. Não que ele tenha recomendado, mas me inspirou. E achei divertido quando fui, toda contente, contar que o havia lido e ele apenas assentiu. Não houve discussão, nem descobertas. Ninguém citou frase alguma. Era como se fosse um segredo de uma sociedade secreta. Não a sociedade dos que não leram o livro, mas a dos que leram, se decepcionaram e não querem mitigar o sonho.
Não podia deixar essa data passar em branco.
Porque eu sou grata, imensamente grata.
Do lado de fora da caverna é até mais assustador, mas é bem mais bonito também.