Palavras líquidas

Dentro de mim, vão nascendo palavras líquidas, num idioma que desconheço e me vai inundando todo inteiro.

Mia Couto in “O Fio da Missangas” (O peixe e o homem)

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Felicidade que não se vê

Peço-te que não me contes histórias de despedidas. (…) Peço-te que olhes para o que fazem as pessoas felizes — são essas que preciso de ver. Dizes-me que te peço demasiado, que a felicidade não se vê.

Inês Pedrosa in “A Eternidade e o Desejo”

Deu-se o encontro

Não havíamos marcado hora, não havíamos marcado lugar. E, na infinita possibilidade de lugares, na infinita possibilidade de tempos, nossos tempos e nossos lugares coincidiram. E deu-se o encontro.

Rubem Alves in “Carta a um amigo”

Murchando

A gente precisava amar, ou acabava murchando e morria.

V. C. Andrews in “A Saga Dos Foxworth – O Jardim Dos Esquecidos”

Cara metade

Fosse eu retirada da ausência por desejo de alguém. Me tivesse calhado, ao menos, um homem completo, pessoa acabada. Mas não, me coube a metade de um homem. Se diz, de língua girada: o meu cara-metade. Pois aquele, nem meu, nem cara. E se metade fosse, não seria só a cara, mas todo ele, um semi macho.

Mia Couto in “O Fio da Missangas” (Meia culpa, meia própria culpa)

Fraqueza e força

“se você nasceu com
fraqueza para cair
você nasceu com
força para levantar”

Rupi Kaur in “Outros jeitos de usar a boca”

Crepúsculos

Já caiu a noite, num minuto, nem demos pela queda. A natureza poupa este lado do mundo à morte quotidiana do crepúsculo. A noite desaba sobre o dia como se fosse apenas o seu forro de seda escura, o seu lençol frio, a sua libido. Clara, se ao menos tu entendesses a angústia dos meus crepúsculos. (…) Como posso pedir-te que saias do teu desespero para entrares no meu?

Inês Pedrosa in “A Eternidade e o Desejo”

Não sou um pássaro

Eu não sou um pássaro e nenhuma rede pode me enredar. Eu sou um ser humano livre, com vontade própria.

Charlotte Brontë in “Jane Eyre”

Interruptor secreto

Então, compreendi qual era o segredo que eu procurara durante tanto tempo – o interruptor secreto que ligava o amor… (…) Eram os olhos. O segredo do amor estava nos olhos, na maneira de uma pessoa olhar para outra, no modo como os olhos comunicavam e falavam enquanto os lábios ficavam imóveis.
Os olhos de Chris tinham-me dito mais do que dez mil palavras conseguiriam dizer. E não era apenas a maneira pela qual ele me tocara, com carinho e ternura; era o modo como ele me tocava enquanto me olhava daquele jeito.

V. C. Andrews in “A Saga Dos Foxworth – O Jardim Dos Esquecidos”

O meu homem

Há mulheres que querem que o seu homem seja o Sol. O meu quero-o nuvem.
Há mulheres que falam na voz do seu homem. O meu que seja calado e eu, nele, guarde meus silêncios. Para que ele seja a minha voz quando Deus me pedir contas.
No resto, quero que tenha medo e me deixe ser mulher, mesmo que nem sempre sua.
Que ele seja homem em breves doses.
Que exista em marés, no ciclo das águas e dos ventos.
E, vez em quando, seja mulher, tanto quanto eu.
As suas mãos as quero firmes quando me despir. Mas ainda mais quero que ele me saiba vestir. Como se eu mesma me vestisse e ele fosse a mão da minha vaidade.

Mia Couto in “O Fio da Missangas” (Na tal noite)